Título: País rejeita proposta uruguaia para mudar o acordo automotivo
Autor: Landim, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 16/03/2007, Brasil, p. A2
O governo do Brasil descartou ontem a proposta do Uruguai de comércio administrado de veículos e autopeças. "Está fora de cogitação", afirmou ao Valor Antonio Sérgio Martins Mello, secretário de Desenvolvimento da Produção do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Principal negociador dos acordos automotivos, Mello avalia que a sugestão interrompe o fluxo de comércio entre os dois países. Ele conta que o Brasil elabora uma contraproposta para apresentar ao sócio do Mercosul. O acordo automotivo entre Brasil e Uruguai expira em junho. A proposta uruguaia prevê que para cada US$ 1 exportado pelo Brasil para o Uruguai sem pagar tarifa de importação, o país será obrigado a comprar US$ 3 do vizinho. Para ônibus e caminhões, a sugestão é que para cada US$ 1 exportado, o Brasil importe US$ 1,5. Em autopeças, a relação é de US$ 1 para US$ 1.
O Uruguai insiste que um comércio administrado, a exemplo do que ocorre com a Argentina, é a única maneira de atrair investimentos. O subsecretário da Indústria do Uruguai, Martín Ponce León, explica que, ao aplicar uma tarifa comum elevada e aceitar aumento dos preços internos do produto, o país espera uma contrapartida em emprego, que não está ocorrendo.
A principal reclamação dos uruguaios é o déficit comercial. No setor automotivo, o Brasil exportou para o Uruguai US$ 146 milhões em 2006 e importou US$ 8,7 milhões. "Quando chega a esse ponto, é evidente que temos que fazer algo", disse León ao Valor. Ele reconhece que é difícil atrair uma montadora, mas gostaria que mais empresas de autopeças se instalassem no Uruguai.
Segundo Mello, estão em estudos alternativas para favorecer o Uruguai. Ele diz que a Marcopolo examina a possibilidade de instalar uma "terminadora" de ônibus no Uruguai, onde seriam colocados itens como vidros ou bancos. A empresa venderia esses veículos ao Uruguai, que está renovando a frota de 2 mil ônibus. Por meio da assessoria de imprensa, a Marcopolo confirma que estuda alternativas para aumentar o valor agregado de componentes uruguaios nos ônibus que vende ao país, mas descarta a instalação de uma fábrica.
Outra idéia, diz Mello, seria favorecer o Uruguai na blindagem de veículos, segmento em que o país possui know-how. Mas ainda está em discussão o percentual de conteúdo local que será exigido. Os dois países também não chegaram a um acordo sobre as cotas de veículos e peças que o Uruguai pode vender ao Brasil com regime de origem flexível.
A indústria automobilística do Brasil está preocupada com a concorrência da chinesa Chery, que vai instalar uma montadora no Uruguai em 2008. León enfatiza que o Uruguai venderá, no máximo, 20 mil carros chineses ao Brasil, que é o tamanho da sua cota e não representa 1% do mercado brasileiro. "No dia em que os chineses quiserem realmente vender muitos carros, não vão se instalar no Uruguai, mas no Brasil", diz León.
Delegações dos dois governos estiveram reunidas ontem de manhã no Sindicato da Indústria de Autopeças (Sindipeças) e à tarde na Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). Os dois setores foram escolhidos, porque representam os maiores déficits do Uruguai com o Brasil. Nos encontros, León explicou que, devido à baixa escala, o Uruguai decidiu investir em nichos de produção.
No setor têxtil, o superávit brasileiro com o Uruguai está em US$ 500 milhões. Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit, diz que o setor não descarta investir no Uruguai em lã, segmento onde o país possui matéria-prima abundante. "Mas o Uruguai tem o mesmo problema do Brasil de falta de acesso preferencial aos grandes mercados", diz. O Uruguai tentou negociar um acordo de livre comércio com os EUA, mas foi barrado por Brasil e Argentina.
As negociações entre brasileiros e uruguaios devem continuar em breve. O ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, pretende visitar o Uruguai no dia 26.