Título: Discurso muda, mas rigor persiste na zona do euro
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 18/03/2013, Internacional, p. A11

O prazo suplementar que a França, Holanda, Espanha e Portugal deverão receber proximamente para reduzir o déficit público a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) não significa giro de política economica na zona do euro, concordam analistas.

A flexibilidade que será dada a esses países é uma constatação da incapacidade de alcançar a meta em meio ao débil desempenho economico, que está empurrando a França, a segunda maior economia da Europa, para as proximidades da periferia em crise.

Analistas agora projetam contração de 0,5% do PIB da zona do euro em 2013. A França estagnará de novo (0%), a Itália tem contração prevista de 1,7%, a Espanha, de 1,6% e Portugal, 2,4%. A Grécia sofre baixa da produção de 6,3% e seria o único país a continuar vendo o PIB encolher em 2014. Em todo caso, o tom mudou ligeiramente entre os líderes europeus. A maioria reconhece que os efeitos da austeridade exagerada provocaram recessão mais profunda e desemprego maior do que previsto.

A ideia agora é que a disciplina fiscal enfoque menos cortes duros de despesas e mais reformas estruturais. Só que reforma estrutural leva tempo a dar resultado, e as populações não têm paciência diante de desemprego, queda de renda e outras misérias sociais.

Na prática, continua a prevalecer o rigor fiscal entre os líderes europeus, defendido pela Alemanha. A chanceler Angela Merkel prepara medidas para equilibrar seu próprio Orçamento, mantendo a pressão para os parceiros manterem os cintos apertados.

A França é o país que mais inquieta no momento, também pela falta de clareza na estratégia econômica do governo socialista de François Hollande. E continuará sob preço do vizinho alemão. Hollande admitiu pela primeira vez que o déficit público tende a ficar em cerca de 3,7% do PIB e recusa mais medidas de austeridade.

O impasse político na Itália também retarda planos de estabilização. Cerca de 160 empresas são fechadas por dia, um recorde. O presidente do Banco Central Europeu, Mário Draghi, considera que a Itália é hoje o país menos produtivo entre os grandes da zona do euro. A Comissão Europeia já sinalizou um segundo ano adicional, até 2015, para Portugal alcançar a meta de 3% do PIB de déficit.

Na Espanha, o ritmo da contração diminuiu, e como nos outros países a esperança são as exportações. Como não podem desvalorizar a moeda, os paises do sul da Europa cortaram salários para melhorar competitividade. Na Holanda, a desalavancagem (redução das dividas) freia a retomada do crescimento. A queda na demanda doméstica deve ficar em 1,4%, mesmo nível de 2012.

Na cúpula de líderes encerrada na sexta-feira, em Bruxelas, o presidente da Comissão Europeia, José Durão Barroso, lamentou que medidas de curto prazo não tenham sido tomadas para estimular o crescimento. Para alguns analistas, a atividade econômica na zona do euro "começa a convergir" para seu potencial a partir de 2015.