Título: Fed provocou avalanche de US$ 100 bi no Brasil
Autor: Ribeiro, Alex
Fonte: Valor Econômico, 22/03/2013, Brasil, p. A2

A segunda rodada de expansão quantitativa do Federal Reserve (Fed), o chamado QE2, de 2010, aumentou em US$ 100 bilhões o fluxo de capitais estrangeiros ao Brasil, aponta um estudo ainda inédito feito pelo diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC), Luiz Awazu Pereira da Silva, em coautoria com dois economistas da casa.

Essa avalanche de dinheiro, equivalente a um terço das reservas internacionais da época, teve efeitos desestabilizadores sobre o Brasil, complicando ainda mais a administração da política econômica.

O dólar sofreu desvalorização adicional de R$ 0,20, provocando o recuo da taxa de câmbio então vigente de R$ 1,80 para R$ 1,60, segundo os cálculos dos economistas. O valor de mercado das empresas listadas na bolsa subiu o equivalente a 12% do PIB, ampliando a sensação de riqueza e euforia de empresas e da população em geral. A economia ganhou um impulso adicional na direção do superaquecimento, com uma queda de cinco pontos percentuais nos juros dos empréstimos bancários, e uma expansão adicional de 0,9% do PIB no crédito livre.

Diretor do BC avalia impacto do QE2 sobre a economia

O estudo é um contraponto a trabalhos anteriores, incluindo um do Fundo Monetário Internacional (FMI), que sustentam que a segunda expansão quantitativa do Fed - que equivale basicamente a injetar US$ 600 bilhões no sistema financeiro internacional, por meio da compra de títulos do Tesouro americano - não teve efeitos relevantes nos fluxos de capitais a países emergentes. A íntegra deve ser divulgada apenas em abril, como texto para discussão do BC, com o título "Como a Expansão Quantitativa e Fluxos de Capitais Relacionados Afetaram o Brasil? Medindo os Efeitos "Desestabilizadores" Por Meio de uma Rigorosa Avaliação Contrafactual".

Uma das ressalvas é que o estudo não reflete necessariamente a posição do BC, mas o trabalho tem o peso da autoria de um dos dirigentes mais importantes da instituição. Awazu é considerado pelo mercado financeiro como um dos membros do BC mais afinados com o presidente da instituição, Alexandre Tombini.

Sua posição permite juntar o que ocorre dentro e fora do país, já que ele participa de algumas das mais importantes negociações internacionais dentro do G-20 e, ao mesmo tempo, tem assento no Comitê de Política Monetária (Copom) e participa das decisões da autoridade monetária para a adoção de medidas macroprudenciais e a estratégia para intervenções no mercado doméstico de câmbio. Os outros dois coautores do estudo são o economista João Barata Ribeiro Blanco Barroso, um estudioso dos fluxos internacionais de capitais, e Adriana Soares Sales, chefe-adjunta do departamento que administra as reservas internacionais do país. Eles não quiseram comentar o estudo, sob a justificativa de que não foi oficialmente divulgado.

A discussão mais ampla é sobre como as excepcionais condições financeiras internacionais levaram os países emergentes a adotar medidas defensivas que, embora eficazes, estão longe do ideal. Até a quebra do banco Lehman Brothers em 2008, prevalecia a visão de que os banco centrais deveriam usar um único instrumento, os juros, para atingir um único objetivo, controlar a inflação. Havia certo consenso em favor de regimes de câmbio flutuante, de liberdade nos fluxos de capitais e de uma política fiscal voltada para a sustentabilidade das dívidas públicas.

Agora, consolida-se o entendimento de que os bancos centrais devem ter outros objetivos além do controle da inflação, entre eles a estabilidade financeira, e até mesmo perseguir certos níveis de taxa de câmbio. Para tanto, deveriam usar outros instrumentos além dos juros, como expansões quantitativas de moeda, medidas macroprudenciais, controles de capitais e intervenções no mercado de câmbio.

Muitos desses princípios foram adotados no Brasil e, cinco anos depois da crise, já era hora de fazer um balanço. O BC tem pago um alto preço em termos de perda de credibilidade relacionada a essa nova combinação de políticas. Medidas macroprudenciais tomadas em 2010, ainda na gestão Henrique Meirelles, para conter a forte expansão de crédito foram interpretadas pelo mercado financeiro como resistência do BC em subir os juros. Intervenções no mercado de câmbio, para corrigir a insustentável apreciação do câmbio, geraram dúvidas sobre a real meta do BC.

O ambiente internacional mais volátil exigiu do BC mudanças mais repentinas na condução da política monetária, como no corte de juros em fins de 2010, e mais cautela em alguns movimentos, como na estratégia atual para conter a escalada dos preços. Tudo isso tira transparência e previsibilidade da ação do BC.

Esses dilemas não são estranhos ao BC. Há alguns dias, num pronunciamento em evento do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), na Cidade do México, Awazu fez um dos mais lúcidos balanços sobre a política econômica adotada pelo Brasil no governo Dilma Rousseff.

Segundo ele, as condições monetárias extraordinárias vigentes nas economias avançadas levaram os países emergentes a adotar um conjunto de medidas para navegar num ambiente de fluxos desestabilizadores de capitais, que levavam à valorização de ativos financeiros (incluindo o dólar) e pressões adicionais nas condições do mercado de crédito.

A resposta foi por meio da adoção de medidas macroprudenciais, como aumento das alíquotas de compulsórios sobre depósitos bancários. Funcionou muito bem, afirmou Awazu, mas causou efeitos colaterais indesejados. Entre eles, prejudicou a percepção do país entre os investidores estrangeiros, reduziu a transparência e previsibilidade das políticas econômicas e prejudicou o clima de investimento entre o empresariado brasileiro.

Esse arranjo, em que economias avançadas têm liberdade para emitir dinheiro sem limites e os países emergentes adotam medidas defensivas, é vista por Awazu como arriscado, longe do ideal e o menos adequado para aumentar a prosperidade em escala mundial. Ele prega um novo pacto no G-20 para lidar com a volatilidade cambial nas economias avançadas e emergentes.