Título: Republicanos são a grande baixa política do Iraque
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 30/03/2007, Internacional, p. A28

Há quatro anos, enquanto os soldados dos Estados Unidos avançavam pelo Iraque, o Partido Republicano também ganhava terreno. Os republicanos não apenas controlavam toda Washington (7 dos 9 juízes da Suprema Corte haviam sido indicados por presidentes republicanos). Controlavam também a maioria dos governos, incluindo Estados como Flórida e Nova York, e ainda se saíam melhor na guerra de idéias, graças à divisão dos institutos de estudos liberais.

Os estrategistas republicanos eram consumidos por visões inebriantes de alcançar um poder sem fim. A "guerra contra o terror", que dividia os democratas, encorajava as facções republicanas a enterrar suas diferenças. Karl Rove, principal estrategista de Bush, gostava de comparar seu chefe a William McKinley, o presidente do fim do século XIX, que havia introduzido uma era de domínio republicano. Grover Norquist, ardoroso combatente dos impostos, apelidou Bush de o "filho de Reagan".

Em determinado momento, a eleição de 2004 pareceu justificar sua visão, com o desempenho dos republicanos melhorando entre os eleitores negros, hispânicos e, particularmente, entre as mulheres.

Em 2007, no entanto, os democratas estavam de volta ao controle das duas câmaras do Congresso e impacientes por recapturar a Casa Branca. Cerca de 40% dos republicanos acreditam que os democratas ganharão a Presidência do país em 2008, em comparação aos 12% dos democratas que pensam o contrário. Ken Mehlman, o presidente do partido que comandou o triunfo de 2004, agora assessora fundos hedge sobre como atuar em um universo de inclinação democrata. Os republicanos poderiam, muito bem, ficar com nada além do Sul e alguns remendos no Meio-Oeste, exatamente como os democratas no fim do século XIX.

Há motivos de sobra para as agonias do partido. Os republicanos foram vítimas de todos os males do poder, desde esbanjar como marinheiros bêbados até corrupção e favorecimento de amigos. O governo Bush embaralhou-se na reação ao furacão Katrina. O principal problema do partido, no entanto, foi a guerra contra o Iraque. Pesquisa da CBS News/"The New York Times" revelou que apenas 39% dos consultados acreditam agora que a invasão do Iraque foi a coisa certa a fazer, enquanto 55% a consideram um equívoco. Também deu munição aos montes para os democratas atacarem.

Longe de unir os republicanos, a guerra agora os divide. É certo que a maioria, 76%, continua a acreditar que embarcar na guerra foi a decisão certa e que os EUA deveriam permanecer no país até que o trabalho esteja terminado, 71%. Também é verdade que os democratas continuam divididos sobre o assunto. Entretanto a divisão que Bush aproveitou em 2004 agora se disseminou para sua própria coalizão, com partes da intelligentsia conservadora em plena revolta.

Stephen Bainbridge, acadêmico conservador da Universidade da Califórnia, vem argumentando que a decisão de Bush de ir à guerra "desperdiçou o momento conservador ao buscar uma guerra por opção própria (que não era imperiosa), por vias políticas que beiraram a incompetência criminal".

William Buckley, o papa do movimento conservador, disse que se Bush fosse líder em um sistema parlamentarista "seria de esperar que renunciasse ou fosse retirado". Richard Viguerie, outro veterano conservador, disse nunca ter visto os "conservadores tão rotundamente impacientes como hoje".

A guerra acabou com a reputação de competência do governo e, com ela, a idéia de que os republicanos possuem uma vantagem inerente com sua imagem de partido "paternal". O governo que chegou a vangloriar-se por sua força junto ao empresariado ficará lembrado para sempre por termos como a "impreterível" necessidade de invasão, por causa das armas de destruição em massa, e "missão cumprida" (faixa pendurada em porta-aviões no qual Bush dizia, em maio de 2003, que as principais operações de combate no Iraque haviam terminado). Ou, ainda, por desastres como o fracasso em preparar hospitais militares para receber os feridos. A mesma pesquisa da CBS News/"The New York Times" mostrou que só 28% aprovaram a forma como Bush lidou com a situação no Iraque.

Dificilmente os danos ficarão só nisso. Uma pesquisa da CNN revelou que 54% das pessoas acham que o governo deliberadamente enganou a população dos EUA sobre a posse de armas de destruição em massa no Iraque. Outra, da ABC News/"The Washington Post", em fevereiro, divulgou que 63% dos pesquisados não acredita que o governo Bush reporte com honestidade sobre possíveis ameaças de outros países. O Partido Democrata usará sua maioria nos próximos dois anos para aprofundar a inquietude pública com a conduta do governo na guerra. Como resultado, em 2008, ser republicano pode significar uma carga maior do que foi em 2006.

A inabilidade de Bush ao lidar com a guerra afetou as duas maiores vantagens dos republicanos em relação aos democratas - a reputação de política externa hábil e o uso da força sem dar satisfações. Nomes como Richard Nixon, Henry Kissinger, George Bush pai e Brent Scowcroft ajudaram a identificar os republicanos com o domínio da política externa. (Bob Woodward perguntou a Bush se ele havia consultado o pai antes de invadir o Iraque. Ele disse que havia consultado um "pai maior").

A guerra no Iraque, no entanto, destruiu essas vantagens de décadas. O partido perde apoio mesmo entre as antes firmes Forças Armadas. Hoje, apenas 46% dos soldados se dizem republicanos, em comparação aos 60%, em 2004. Apenas 35% deles aprovam a forma como a guerra foi conduzida. Os eleitores agora estão muito mais dispostos a ouvir os democratas sobre assuntos de paz e guerra. A declaração do senador Barack Obama em 2002, "não me oponho a todas as guerras, oponho-me a guerras estúpidas", é o refrão perfeito para o partido ressurgente.

A guerra no Iraque também minou a vantagem dos republicanos com a "guerra contra o terror", inclusive pelo sucesso obtido por Bush ao atrelar os dois assuntos na campanha de 2004. Muitos republicanos acreditaram que a guerra contra o terror poderia ter o mesmo efeito que a Guerra Fria, consolidando o partido no Poder Executivo. Os presidentes democratas tiveram de esperar pelo fim da Guerra Fria para poder ganhar dois mandatos na Casa Branca. Essa consolidação, no entanto, agora parece improvável. A gigantesca vantagem do Partido Republicano nesta área esvaiu-se. Na pesquisa ABC News/"The Washington Post" de fevereiro, 52% dos consultados disseram crer que os democratas no Congresso fazem um trabalho melhor do que Bush na campanha dos EUA contra o terrorismo.

Ao mesmo tempo, a guerra cobrou um preço imensamente alto na administração das políticas domésticas. Depois da eleição de 2004, Bush esboçou uma ambiciosa agenda para evitar o destino dos presidentes anteriores em seus segundos mandatos e levar o país a uma direção mais "republicana": reforma da política de imigração e da Previdência, simplificação dos impostos e derrubada de regulamentações. A agenda deu em quase nada. Constantemente as autoridades tiveram as atenções desviadas para lidar com a crise no Iraque. Um dos motivos pelos quais o governo demorou tanto para reagir ao Katrina foi que Karl Rove, o estrategista de Bush, temia tornar-se vítima no caso Plame, em que o governo teria vazado a identidade de uma agente secreta como represália a críticas de seu marido ao Executivo. No fim de 2005, o governo concluiu que era impossível seguir adiante com grandes iniciativas, como a reforma previdenciária, em tempos de guerra.

O homem que pagará o maior preço político pelo Iraque, no fim da contas, será o próprio Bush. Não é de surpreender que historiadores liberais debatam se ele não é o pior presidente da história dos EUA. Os conservadores, contudo, começam a fazer o mesmo jogo. Recente pesquisa de ativistas conservadores radicais divulgou que apenas 3% se descrevem como republicanos no estilo George Bush, mas que 79% se vêem como republicanos ao estilo Reagan. Os danos não ficarão limitados ao líder do partido. Nos anos que estão por vir, os republicanos pagarão um preço coletivo pela "coisas" que aconteceram no Iraque.

(Tradução de Sabino Ahumada)