Título: Argentinos aconselham Equador a não dar calote
Autor: Rocha, Janes
Fonte: Valor Econômico, 02/02/2007, Internacional, p. A9

Quando assumiu, no início deste ano, o novo presidente do Equador, Rafael Correa, que prometeu renegociar a dívida externa do país na campanha eleitoral, pediu ajuda a quem considerava "expert" no assunto: o governo da Argentina. Depois de uma polêmica renegociação que terminou em 2005, a Argentina reestruturou mais de US$ 100 bilhões em débitos e já registra três anos de crescimento elevado e ininterrupto de sua economia.

Correa pediu ao governo argentino assessoria para reestruturar sua dívida externa de aproximadamente US$ 10,3 bilhões - 25,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Na semana passada, desembarcaram em Quito o ex-secretário de Finanças do Ministério da Economia da Argentina, Guillermo Nielsen - que participou ativamente da reestruturação em 2004 -, e o atual, Sergio Chodos, para um encontro com o Ministro da Economia do Equador, Ricardo Patiño.

Depois de analisar os dados macroeconômicos do país, apresentados por Patiño, ambos concluíram que Correa deveria ser demovido da idéia do calote. "O default não é a solução para o Equador" disse Nielsen à agência Dow Jones. Segundo Nielsen, a relação dívida/PIB do Equador é menor que 30%, enquanto na Argentina, quando a moratória foi declarada em 2001, ultrapassava 100%. No Brasil, por exemplo, essa relação é hoje de 17,6% para a dívida externa e 54% para a dívida total.

Além disso, o Equador tem importantes reservas de petróleo, sua economia cresceu 4,3% em 2006 com projeção de avançar mais 3,3% em 2007 e com inflação de apenas 3,3%, segundo o próprio Banco Central do país. São indicadores super civilizados se comparados com os que a Argentina exibia quando declarou a moratória em 2001.

Para o ex-secretário de Finanças argentino, um dos problemas mais graves que o Equador tem que resolver do ponto de vista de política econômica é a arrecadação de impostos, que ele definiu como "deplorável, para dizer o mínimo". Embora o secretário Chodos não tenha feito qualquer comentário sobre o encontro, o fato é que, depois da visita, Patiño baixou o tom do discurso.

Ontem ele já dizia, segundo as agências internacionais: "Nós não decidimos ainda exatamente o que será nosso plano de renegociação. Estamos discutindo para tomar uma decisão". O presidente Rafael Correa tem dito que considera a dívida do país "ilegítima" e que pelo menos uma decisão já foi tomada em relação a esses débitos: vai quitar de uma só vez a totalidade dos US$ 22 milhões que deve ao Fundo Monetário Internacional (FMI), a exemplo do que já fizeram Brasil e Argentina.

A perspectiva de tomar mais um calote está colocando os investidores internacionais em alerta. No próximo dia 15, o Equador deveria pagar US$ 135 milhões referentes as rendimentos periódicos de um bônus emitido pelo país, o Global 2030, e ninguém sabe se vai receber ou não. O governo americano também está preocupado e pretende colocar o tema Equador na pauta de uma reunião que o subsecretário para Assuntos Políticos do Departamento de Estado, Nicholas Burns, e o subsecretário para o continente americano, Tom Shannon, terão com o presidente Nestor Kirchner, na próxima visita oficial que farão a Buenos Aires semana que vem, segundo informou o jornal argentino "Clarín".

Hoje trabalhando como consultor privado, Guillermo Nielsen disse que não quer ser visto como alguém que apóia uma estratégia agressiva e anti-mercado. "A última coisa que eu queria era aparecer como uma espécie de rebelde do mercado internacional", disse à agência de notícias Dow Jones.