Título: Para Senna, no momento, é necessário conter a demanda
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 13/01/2005, Especial, p. A10

Valor: Em 2004, o país cresceu algo como 5% e registrou segundo superávit seguido em conta corrente. A política econômica está certa? José Júlio Senna: A expressão política econômica envolve sempre mais de um horizonte de tempo. Há os aspectos ligados à estabilização, de prazo relativamente curto, e os associados às condições para o crescimento, de prazo longo. Em linhas gerais, a questão da estabilização tem sido muito bem administrada, em especial no que diz respeito à atuação do BC. E o resultado apareceu: as expectativas de inflação foram rapidamente revertidas e encontram-se em nível aceitável. Falta muito pouco para ficarem compatíveis com o cumprimento da meta. A política de prazo mais longo, porém, deixa a desejar. O governo precisa dedicar-se à implementação de uma política capaz de induzir ritmo mais rápido de recuperação dos investimentos privados. O Ministério da Fazenda tem o diagnóstico correto, em particular no tocante à necessidade de reformas microeconômicas. Falta cuidar da implementação e agir de maneira mais agressiva. Valor: Há reparo a fazer na combinação de câmbio flutuante, regime de metas inflacionárias e superávits primários elevados? Senna: De modo geral, a combinação é boa. O governo fez bem em não ceder às pressões no sentido do "afrouxamento" das metas de inflação. A decisão de intervir no câmbio parece ter a ver com preocupações acerca do comportamento da economia mundial. O ajustamento da taxa cambial nos EUA poderá não ocorrer de maneira tão benigna quanto a verificada em meados da década de 1980. O BC parece ter preferido evitar que o dólar fosse para R$ 2,50, que era o que se avizinhava, na ausência da intervenção. Começar um ano talvez problemático com a moeda tão apreciada não seria prudente. Quanto à questão fiscal, a atenção de todos parece voltada apenas para resultados primários. Seria mais proveitoso destacar que ainda temos expressivo déficit nominal, de quase 3% do PIB. Não parece elevado por padrões internacionais, mas a situação do Brasil é especial. O país é muito endividado. Os níveis da dívida e dos gastos públicos constituem o principal fator de risco, motivo pelo qual deveríamos partir para cortes expressivos do dispêndio governamental e superávits nominais. A melhora das relações de endividamento seria excepcional, reduzindo a percepção de risco-país e abrindo espaço para o crescimento sustentável. Considero incorreta a afirmação de que a política fiscal é boa. Talvez seja a possível politicamente no momento, mas não é adequada à circunstância de país muito endividado. Valor: É realmente necessário reduzir o ritmo de crescimento? Senna: O crescimento de 2004 foi excelente por dois motivos. Primeiro, porque o mundo ajudou, e muito. Isso contribuiu bastante para a formação de expectativas favoráveis ao mundo emergente. Em segundo lugar, o restabelecimento da credibilidade da política de estabilização produziu a já mencionada reversão das expectativas inflacionárias, facilitando a expansão da oferta agregada. Nós tínhamos expressiva folga de utilização de capacidade instalada. Daqui para frente, o ritmo de crescimento ficará mais próximo do potencial de longo prazo. Estimativas quanto a isso são sempre imprecisas, mas possivelmente é algo entre 3% e 4% ao ano. Nosso ritmo de crescimento convergirá para essa faixa em cerca de 12 ou 18 meses. Valor: O BC iniciou um ciclo de alta dos juros quando não havia sinais inequívocos de pressões de demanda e os juros reais já estavam muito elevados. Não é muito rigor? Senna: O modelo adotado pelo BC é bastante claro. Quando as projeções de inflação superam a meta, faz-se necessário elevar o juro. Na situação presente, reduzir o ritmo de crescimento da demanda tornou-se essencial. Em 2003, foi possível trazer a inflação para baixo na presença de expansão de demanda. Por quê? Porque havia considerável capacidade ociosa e a oferta poderia avançar. Agora, não há mais espaço para tal "truque". Tornou-se necessário conter a demanda. Valor: A meta de inflação de 5,1% não é muito ambiciosa? Há problema se a inflação ficar mais próxima de 6% que de 5%? Senna: Na verdade, não será grande problema se o ano terminar com inflação de 6%. Mas o BC não pode revelar que estaria contente com isso. Precisa mostrar-se permanentemente descontente com números que sugerem descumprimento de metas. Caso contrário, as expectativas e a própria inflação saem do controle. Não é a meta que é ambiciosa, é o risco-país que se mostra muito elevado. No mundo todo, a inflação é baixa. A mesma meta poderia ser facilmente atingida com juros mais baixos se a percepção de risco fosse melhor. Isso mostra que a tarefa de conter a inflação e criar condições para o crescimento sustentável é de todo o governo, e não apenas do BC. Valor: A apreciação cambial tem sido vista com preocupação por economistas e exportadores. O câmbio está muito apreciado? Senna: O câmbio não está, nem estava, excessivamente apreciado. Pensando em cesta de moedas, temos flutuado perto da média observada no período de câmbio flutuante, desde 1999. O que certamente provocou susto no BC foi a possibilidade de em pouco tempo o dólar chegar a R$ 2,50, ou menos. O BC possivelmente entendeu que entrar em 2005 com o câmbio nesse nível seria imprudente. Valor: A vulnerabilidade externa acabou? Senna: Os indicadores de solvência externa melhoraram muito. A relação dívida bruta/exportações caiu para metade nos últimos seis anos (hoje é pouco superior a dois). A corrente de comércio chegará, brevemente, a 30% do PIB. Isso nos torna menos vulneráveis, mas até certo ponto. Enquanto o endividamento público representar ameaça, não será possível dizer que estamos "blindados". O ajuste do setor público deveria ser prioridade. Governo não tem que dar emprego ao cidadão. Tem de criar condições para que o setor privado gere tais empregos.