Título: Ligue o celular, o filme começa em instantes
Autor: Moreira, Talita
Fonte: Valor Econômico, 21/02/2007, Empresas, p. B1
Favor ligar seu telefone móvel, o filme começa em instantes. Uma mensagem como essa é improvável na sala de cinema, quando se costuma pedir justamente que os espectadores tenham a delicadeza de manter os celulares em silêncio. Mas é o que pretende a Nokia ao lançar um aparelho que contém a íntegra do longa-metragem "Missão Impossível 3", dirigido por J.J. Abrams e estrelado por Tom Cruise.
O lançamento do modelo foi feito mundialmente neste mês, quando o o filme chegou às locadoras. É uma das primeiras iniciativas do gênero no mercado de telefones móveis e, no Brasil, marca a estréia dos longas em celulares.
"O mercado de filmes e vídeos nos telefones móveis ainda é restrito, mas tem um futuro interessante", avalia o gerente de multimídia da Nokia no Brasil, Fiore Mangone. "Cada um vai poder assistir a seus filmes quando e onde quiser."
A estratégia da companhia, maior fabricante de celulares do mundo, vai ao encontro do interesse da indústria de telecomunicações em estimular o uso de conteúdos de vídeo - mantra entoado na semana passada por executivos que estiveram no 3GSM World Congress, em Barcelona. Durante o evento na Espanha, a Fundação Sundance (que promove o festival de filmes independentes) apresentou cinco curtas criados exclusivamente para telefones móveis. Recentemente, a operadora americana Sprint Nextel lançou um serviço de "pay-per-view" que oferece filmes para telefones móveis.
No Brasil, as operadoras sondam o território cinematográfico, disponibilizando trailers, papéis de parede e a trilha sonora de películas holywoodianas. O download de um longa ainda seria demorado, caro e incompatível com a maioria dos aparelhos. Por ora, o conteúdo de vídeo oferecido pelas teles é baseado principalmente em programas de TV, alguns produzidos com exclusividade para os celulares.
Até certo ponto, a Nokia está correndo em paralelo às operadoras. Como o "Missão Impossível 3" está embutido no hardware, o "espectador" não acessa a rede de telefonia móvel para assistir a ele. "Não gera receita para a operadora", diz Mangone. "Mas fica a critério dela explorar possibilidades e oferecer conteúdos como campainhas e imagens e músicas associadas ao filme."
Pelo sim, pelo não, o modelo N73 vendido por intermédio das operadoras não inclui o cartão de memória com o vídeo. Ele está disponível apenas na versão comercializada diretamente pela Nokia no varejo, onde custa cerca de R$ 2 mil.
Mas quem estaria interessado em acompanhar os 126 minutos do filme na minúscula telinha do celular?
O executivo aposta que o aparelho atrairá consumidores que viajam muito e poderão assistir ao longa durante um vôo, por exemplo. O terminal foi planejado para que o filme possa ser visto mesmo com a recepção de radiofreqüência desligada. Outros atrativos, segundo Mangone, são os fatos de que o download de vídeos - aí, sim, utilizando a rede das operadoras - ainda é demorado e caro. "Missão Impossível 3" servirá como teste para a Nokia, que pretende lançar outros modelos com filmes e músicas embutidos.
O mercado ainda é pequeno, mas soa promissor, razão pela qual todos - de operadoras a produtores de filmes - querem um pedacinho dele.
No caso dos fabricantes de aparelhos, apostar em vídeos pode ser uma forma de familiarizar os consumidores com aparelhos sofisticados, avalia o diretor-geral do Yankee Group no Brasil, Luís Minoru. Para as operadoras, as estratégias têm em vista estimular o tráfego de dados e reduzir a dependência da receita gerada pelos serviços de voz.
Segundo a consultoria, o segmento de dados (internet, vídeos, fotos etc.) gerou R$ 2,6 bilhões no Brasil em 2006, ou 10% do faturamento das operadoras de celular. A previsão é de que alcance R$ 7,9 bilhões em 2010. Conteúdos de informação e entretenimento movimentaram R$ 396 milhões no último ano, mas o Yankee espera que cheguem a R$ 1,8 bilhão em quatro anos.
Analista sênior de telecomunicações para a empresa de pesquisas IDC, Brendan Conroy aposta que o mercado de vídeos no celular vai crescer muito, porém, isso só deverá acontecer quando as redes de terceira geração estiverem funcionando.