Título: Risco de apagão aumenta preço de energia futura
Autor: Rittner, Daniel
Fonte: Valor Econômico, 30/01/2007, Brasil, p. A2

O fantasma de um novo apagão já provoca reflexos no mercado de energia elétrica, apesar da insistência de parte do governo em rechaçar ameaças de racionamento. Nos últimos meses, os consumidores livres têm sentido dificuldade em encontrar energia disponível para entrega entre 2010 e 2012. Formado por grandes indústrias e empresas varejistas, o grupo de consumidores livres já representa mais de 20% de todo o consumo de eletricidade no país e não é atendido pelo mercado cativo das distribuidoras, podendo optar livremente pelos seus fornecedores.

De seis meses para cá, comercializadoras de energia - que fazem a intermediação dos contratos - relatam a existência de dificuldades para achar garantia de suprimento no mercado. "Isso ficou bastante nítido a partir do segundo semestre do ano passado", afirma Marcelo Parodi, sócio-diretor da Comerc, maior comercializadora do país. Ainda não chega a faltar energia, mas tem sido cada vez mais penoso encontrá-la e hoje é preciso buscar um "mix" de fontes para atender às necessidades dos consumidores livres, explica Parodi.

Resultado: os preços já tiveram forte alta. Há seis meses, as geradoras vendiam energia para o período 2008-2012 por cerca de R$ 95 o megawatt-hora (MWh) - preço válido por toda a extensão do contrato, com reajustes geralmente atrelados ao IGP-M. Hoje, os contratos de longo prazo estão sendo negociados por valores que vão de R$ 110/MWh a R$ 120/MWh. Ainda assim, são mais atrativos - além da maior previsibilidade - do que a escalada de preços vista nos leilões de energia promovidos pelo governo, que atendem somente ao mercado regulado.

As autoridades do setor elétrico costumam recorrer aos resultados dos últimos leilões, que praticamente garantiam o suprimento de energia às distribuidoras até 2011, para desmentir os riscos de apagão no futuro. Mas esses números não valem para os consumidores livres, que precisam garantir seu fornecimento com contratos próprios. Para eles, a recomendação da Comerc é clara: não ficar, em hipótese nenhuma, a descoberto para o período próximo de 2010, quando as curvas indicam a demanda superando a oferta, afirma Parodi.

O presidente da Abraceel (associação das comercializadoras), Paulo Pedrosa, diz que o alto nível de água nos reservatórios, devido às chuvas recentes, fez o preço no mercado de curto prazo cair ao piso de R$ 17,59/MWh. A cotação só vale para quem precisa de complemento de energia, por exemplo, para o mês seguinte.

Pedrosa alerta, porém, que o cenário reconhecido por todos os agentes do setor é de alta dos preços de energia. "Muito mais que o desabastecimento, o cenário de risco que se vê hoje é de preços elevados", acrescenta.

Chamou a atenção do mercado a divulgação de um relatório da Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae), que aponta os riscos de déficit no abastecimento de energia se o país crescer a taxas anuais de 5%, conforme prevê o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Em menos de três meses, trata-se da segunda advertência com o mesmo teor. No fim do ano passado, o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman, alertou para os riscos de racionamento caso não se corrigissem as estimativas de quanto as usinas térmicas a gás podem agregar ao sistema elétrico no momento em que forem ativadas. Por causa da falta de gás disponível, Kelman advertiu que elas podiam gerar menos energia do que o estimado. Manteve uma queda-de-braço com o ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, e saiu vitorioso: após uma série de testes, confirmou-se que mais de 3 mil MW das térmicas a gás realmente não podiam ser despachados.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, também tem garantido que não há riscos de um novo apagão. Reservadamente, técnicos ligados a ela contrariam o discurso oficial e demonstram preocupação com o suprimento de energia, caso não saiam do papel as usinas do Rio Madeira e de Belo Monte, os dois projetos considerados essenciais para atender ao consumo nos próximos anos.