Título: Troca de farpas marca debate na Câmara
Autor: Ulhôa, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 30/01/2007, Política, p. A10
Num debate marcado pela troca de farpas entre os candidatos à presidência da Câmara, o atual presidente, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), concorrente à reeleição, considerou negativa para a democracia uma eventual vitória do petista Arlindo Chinaglia (SP), líder do governo, pelos efeitos políticos da concentração de poder no PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
"Não creio que, em nome da democracia e do equilíbrio dos Poderes do país, se deva dar ainda mais força e mais poder a um único partido. Não julgo prudente, não julgo equilibrado. Não julgo bom nem para a democracia, nem para o país, nem para o PT a tamanha concentração de poder em suas mãos", disse Aldo.
Chinaglia reagiu dizendo que sua candidatura é suprapartidária e "mais ampla do que o PT". Mas alfinetou Aldo dizendo que ele "não fez essa avaliação" do seu partido quando, em 2005, foi eleito com apoio do PT - que tinha mais de 90 deputados -, embora o PCdoB tivesse apenas nove parlamentares. Aldo negou que essa decisão tenha criado "uma dívida política" para ele.
O presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP), condenou a crítica de Aldo. "Foi uma atitude inadequada porque ele sabe que não é assim. Sempre o tratamos de forma qualificada. Foi uma tentativa de criar um ambiente de rejeição ao PT, que não existe. Não foi um gesto elegante", disse o dirigente petista, mais tarde, quando participava de uma reunião do partido.
No debate, Chinaglia também foi alvo preferencial das críticas do candidato tucano Gustavo Fruet (PR). Reagiu de forma dura quando Fruet avaliou que sua candidatura facilitaria a aprovação de um projeto anistiando o ex-deputado e ex-ministro José Dirceu (PT), cujo mandato foi cassado a partir do envolvimento do seu nome no caso da suposta compra de parlamentares para integrarem partidos governistas e votarem com o governo (mensalão). Com a cassação, Dirceu teve seus direitos políticos suspensos por oito anos.
"Desafio Vossa Excelência, como qualquer um no plenário ou fora dele, a provar que eu esteja orientando minha candidatura para aprovar anistiar o ex-ministro José Dirceu. Por favor, não mencione mais isso", disse Chinaglia, em resposta a Fruet.
Em entrevista, ele afirmou que um presidente da Câmara teria de colocar em tramitação uma proposta de iniciativa popular anistiando Dirceu, com 1,5 milhão de assinaturas, se ela fosse enviada à Casa. "É um dever da Mesa colocar em tramitação. O resultado, quem dará é o plenário. De minha parte, não patrocinarei qualquer movimento para anistiar o ex-ministro", afirmou.
Transmitido ao vivo pela TV Câmara, o debate expôs a tensão da campanha, a quatro dias da eleição do sucessor do presidente da República na ausência do titular e do vice-presidente. A base aliada está dividida entre as candidaturas de Aldo e Chinaglia. A tendência é que a disputa, na quinta-feira, seja decidida apenas no segundo turno, porque a previsão é que nenhum dos três candidatos obtenha maioria absoluta dos votos (metade mais um dos 513) no primeiro turno.
Chinaglia conseguiu o maior número de alianças formais. No debate, Fruet disse que a candidatura do líder do governo "é marcada pela simbologia dos escândalos que marcaram negativamente a Casa, pois tem apoio de todas as forças associadas ao que aconteceu (mensalão)". Segundo Fruet, eleger o petista seria colocar combustível na crise política. Foi outro momento de tensão entre os dois. "Espero que o senhor não tenha incluído o PSDB, que teria me apoiado não fosse sua candidatura", disse Chinaglia. Fruet acusou o petista de não respeitar a decisão do PSDB, ao fazer essa "cobrança pública" ao partido. "Espero que o senhor definitivamente respeite a posição tomada pelo meu partido de forma unânime", disse o tucano.
O deputado paranaense, ex-integrante da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Mensalão, sequer poupou Aldo. Disse que sua gestão foi a "negação da Câmara". Para ele, a vitória de qualquer um dos seus adversários significaria subordinação ao Palácio do Planalto, e que ambos representam o continuísmo. "Temos que acabar com a lógica de que, para ser presidente da Câmara, é preciso ser líder do governo", disse Fruet. Ex-ministro de Lula, Aldo também já exerceu o cargo hoje ocupado por Chinaglia.
O presidente da Câmara negou que sua relação com o presidente seja de subordinação e afirmou nunca ter perguntado a Lula se deveria ser candidato à reeleição. Aldo voltou a defender o congelamento dos salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), até a regulamentação do teto da remuneração do serviço público. Os três candidatos defenderam o reajuste salarial dos deputados com base na correção pela inflação, a recuperação da imagem da Casa e a reforma política. (Colaborou Juliano Basile)