Título: Na trilha da diversificação
Autor: Vieira, Catherine
Fonte: Valor Econômico, 26/01/2007, EU & Investimentos, p. D1

O efeito da queda do juro já é sentido nas carteiras dos fundos de investimento brasileiros. Dados consolidados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a pedido do Valor mostram que a diversificação vem dando o tom à gestão das carteiras. Ações, debêntures, recebíveis e cotas de fundos lastreados nesses títulos estão cada vez mais presentes e correspondiam, no fim de 2006, a 14,64% dos ativos que dão lastro aos fundos, o que representa R$ 134 bilhões. No fim de 2005, esse valor era de R$ 85 bilhões, ou 11,85% do total.

Essa diversificação ocorreu não só porque os investidores e gestores estão buscando no mercado mais oportunidades para ganhar mais, como também acompanha uma oferta muito maior de ativos privados no mercado brasileiro. E deve trazer mudanças no comportamento do investidor pois, junto com a variedade de ativos nas carteiras, vem um risco maior, o que vai exigir mais acompanhamento e mais "ginástica" dos gestores para obter ganhos diferenciados.

Para o presidente da CVM, Marcelo Trindade, esse processo é positivo. "É natural que os investidores e gestores estejam buscando opções diferentes, não é à toa que a oferta de novas debêntures, ações e recebíveis nos últimos anos também cresceu muito, uma coisa tende a ser reflexo da outra", observa ele. "O interessante dessa tendência é que ela tende a valorizar a gestão ativa, ou seja, cada vez mais os gestores terão que ter estratégias diferentes para cativar seus clientes, que tendem a se movimentar mais entre os fundos disponíveis, em busca dos melhores resultados". Para ele, esse movimento, após anos de ganho alto com o juro - que não exigia gestão mais especializada - deve contribuir muito para o desenvolvimento do setor de investimentos.

Ele admite, porém, que a autarquia tende a ter mais trabalho. "Sem dúvida, isso vai exigir mais vigilância, pois esses diferentes ativos tendem a agregar novos e maiores riscos às carteiras", observa Trindade. Mas ele lembra ainda que a fiscalização dos fundos na autarquia foi bem equipada nos últimos anos, com filtros e sistemas que monitoram as carteiras.

Um aspecto interessante no mercado local e que também vem contribuindo para a diversificação das carteiras é a crescente popularização dos fundos multimercados. Há cerca de cinco anos, os aplicadores brasileiros já começavam a dar sinais da preferência por esse produto na hora de buscar um ganho diferenciado, enquanto no início da década ainda se acreditava que essa migração para o risco poderia se dar por meio dos fundos de ações.

Os multimercados atraem pela sua característica mais flexível, já que podem aumentar e reduzir a concentração nos diferentes tipos de ativos disponíveis no mercado, de acordo com o cenário traçado pelo gestor.

O sócio-diretor da consultoria Cyrnel International, Alexandre Oliveira observa que, somente no último ano, os multimercados elevaram sua participação no volume total do setor de fundos de 18,4% para 20,7%. "Com uma remuneração cada vez menor na renda fixa, os investidores estão aceitando níveis cada vez maiores de risco em troca de retornos mais robustos."

No entanto, é preciso ficar atento à eficiência da estratégia da carteira. "Essa migração de recursos para fundos mais agressivos exigirá do investidor mais preparo e capacidade de avaliação, já que o potencial de perdas também se torna maior", diz o diretor da Cyrnel.

Este ano, o ritmo das mudanças nas carteiras tende a se acentuar. Somente no segundo semestre de 2006, por exemplo, é que os fundos de renda fixa e DI com taxas de administração altas começaram a se ver ameaçados pela caderneta de poupança. Além disso, as projeções dos economistas apontam que a queda no juro deve prosseguir. "Tanto os investidores devem continuar a trocar fundos mais conservadores por mais agressivos como a diversificação dos ativos nas carteiras tende a crescer, com a troca dos títulos públicos pelos privados", diz Carlos Frederico Werneck, consultor da Cyrnel.

Apesar da migração, o volume de títulos públicos de curto e longo prazos nos fundos ainda é bem alto, de cerca de 72%. "Só os fundos de renda fixa, sem contar os DI, ainda correspondem à metade do setor, apesar do ganho menor", diz Werneck. "Por aí se tem uma idéia do espaço que ainda há para mudanças", conclui.