Título: Cara nova na previdência
Autor: Fariello, Danilo
Fonte: Valor Econômico, 14/05/2007, EU & Investimentos, p. D1

O crescimento pujante da previdência privada no Brasil e a maior preocupação dos participantes com a rentabilidade de seus planos abrem espaço para que empresas renomadas na gestão de fundos de investimento, mas sem muita tradição na previdência, ganhem espaço também nessa área. O setor ainda é dominado por seguradoras ligadas a grandes bancos, mas a enxurrada de recursos faz fluir dinheiro também para as iniciantes em Planos Geradores de Benefícios Livres (PGBLs) e Vida Gerador de Benefícios Livres (VGBLs).

Nos primeiros quatro meses deste ano, segundo o site Fortuna, o patrimônio dos fundos onde os planos aplicam cresceu 9%, para R$ 75,9 bilhões. Desse total 68% ainda permanecem nas mãos das três grandes seguradoras do mercado, Bradesco, Itaú e Brasilprev. No entanto, novatas ganharam boa importância no começo deste ano. O patrimônio dos planos do UBS Pactual, por exemplo, que lançou planos de previdência associado à Icatu Hartford no ano passado, cresceu 54% de dezembro a abril. Agora, a tradicional gestora de fundos administra também R$ 185 milhões em previdência.

Outro exemplo de forte crescimento é a Hedging-Griffo, que, em parceria com a Mapfre Seguros, começou a distribuir planos em outubro e já tem patrimônio de R$ 64 milhões, tendo partido de menos de R$ 10 milhões no início do ano. Daniel Caldeira, da área de produtos da Griffo, diz que, desse total, R$ 41 milhões foram transferidos de planos de outras seguradoras. "Oferecemos a esses poupadores uma gestão diferenciada, que já temos há 25 anos em fundos de investimentos", diz Caldeira.

Esses gestores contam principalmente com sua rede comercial já instalada para chegar aos participantes e tentar tirá-los de outras grandes seguradoras, conta Luciano Snel, diretor de vida, previdência e capitalização da Icatu Hartford. Desde o ano passado, a seguradora tem firmado contrato com gestores tradicionais para oferecer planos. A Icatu oferece, atualmente, previdência gerida por GAP, WestLB, Fator, Mellon e Legg Mason, além do UBS Pactual e da gestão própria. Isso ocorre porque, por lei, para oferecer PGBL e VGBL, a gestora tem de estar ligada a uma empresa seguradora.

"As empresas de asset management estão olhando com mais atenção para esse mercado que cresce mais de R$ 10 bilhões por ano", diz Snel, que confirma que a seguradora é procurada para mais parcerias atualmente. É um nicho ainda a ser explorado, diz ele. "Muitos gestores temiam que o plano de previdência pudesse canibalizar o fundo, mas em geral é um dinheiro diferente, que concorre com consumo." Os planos de previdência atualmente já possuem patrimônio maior do que os fundos de ações no mercado, segundo dados do Fortuna.

O setor de previdência está em momento de forte expansão e desenvolvimento, criando espaço para gestores mais especializados, como já ocorre no mercado de fundos de investimento, avalia Marcelo D'Agosto, sócio do site Fortuna. "Mas esse setor ainda precisa evoluir para ganhar mais transparência, como é atualmente o de fundos." Ele cita como metas de evolução o maior conhecimento dos participantes dos ativos na carteira dos planos onde investem e a maior padronização das taxas cobradas pelas seguradoras, como a de carregamento, que incide sobre os aportes

A previdência privada aberta cresce no Brasil mais pelo aporte de novos recursos do que pela rentabilidade dos ativos. Isso não ocorre em muitas categorias de fundos, como os DI, que encolhem atualmente. Nos fundos de pensão fechados, o crescimento maior deve-se à rentabilidade dos ativos, pois os novos aportes avançam em menor velocidade. De janeiro a abril, foram injetados na previdência aberta R$ 6,4 bilhões, segundo o Fortuna. Desse total, R$ 3,4 bilhões significou dinheiro fresco, saído do bolso do investidor ou oriundo de outras aplicações.

Snel, da Icatu, diz que o mercado de previdência ainda está em franca expansão e, portanto, há espaço para novos participantes conseguirem captar. Do lado do investidor, isso significa mais concorrência e mais opções de gestão para os recursos que bancarão a sobrevivência na aposentadoria.

Uma ponto favorável às empresas menores de seguros e gestão de PGBL e VGBL foi a implantação recente da regra dos planos de previdência blindados. Por eles, o investidor será o próprio cotista dos fundos em que o plano investe, em vez da seguradora. Com isso, ele fica protegido na fase de acumulação contra uma eventual quebra das empresas envolvidas. Esses planos ainda devem ser regulamentados pela Superintendência de Seguros Privados (Susep) para serem lançados pelas empresas do mercado.

Segundo o relatório mensal de previdência do Fortuna, os fundos mais rentáveis do ano, até abril, são multimercados, com ganho de 6,33% em média. Em seguida, estão os balanceados, com alta de 5,75%. Os fundos de renda fixa rendem 4,11% no ano. Dos R$ 3,4 bilhões captados pelos planos no ano, R$ 2,5 bilhões tiveram como destino os planos de renda fixa.