Título: Capital fora do país aumentou 20% em 2005
Autor: Galvão, Arnaldo e Ribeiro, Alex
Fonte: Valor Econômico, 31/10/2006, Finanças, p. C1

Os capitais de pessoas físicas e empresas brasileiras investidos no exterior aumentaram 20% em 2005, chegando a US$ 111,7 bilhões, segundo informações do censo anual divulgadas ontem pelo Banco Central.

Aumentou sobretudo o volume de investimento direto de brasileiros no exterior, que passou de US$ 69,2 bilhões para US$ 79,3 bilhões entre 2004 e 2005. O crescimento se deve tanto a novos investimentos quanto à valorização de capitais já estavam aplicados fora do país.

Outro item que apresentou forte expansão foram os depósitos brasileiros no exterior, que passaram de US$ 10,4 bilhões para US$ 17,1 bilhões. O crescimento, porém, é apenas estatístico. Não significa que brasileiros decidiram manter maior volume de suas economias depositadas no exterior. Os depósitos cresceram sobretudo devido aos dólares comprados antecipadamente pelo Tesouro Nacional para pagamento da dívida externa. Enquanto esses compromissos não são honrados, os dólares são mantidos no exterior como depósito de bancos brasileiros.

O pano de fundo do aumento dos capitais brasileiros no exterior é uma tendência, acentuada recentemente, de internacionalização de empresas brasileiras - que cada vez mais estão procurando comprar ou instalar unidades em outros países.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, cita cinco fatores por trás da maior internacionalização: 1) forte crescimento da economia mundial; 2) aprofundamento da integração econômica e financeira mundial; 3) expansão das exportações brasileiras; 4) aumento dos lucros, que permitiu que sobrassem capitais para serem investidos; 5) estratégia competitiva das empresas brasileiras para ingressar em mercados localizados no exterior.

"Antes, as empresas brasileiras exportavam apenas de forma oportunista, vendendo para o exterior apenas quando não havia mercado doméstico", afirma. "Agora, exportar é uma das atividades centrais das empresas."

Apesar do "boom" de investimento externo, são poucas as informações estatísticas sobre países e setores preferidos do capital nacional.

O BC divulga basicamente dois tipos de informações. Mensalmente, nos dados do balanço de pagamentos, solta o fluxo de investimentos no exterior. Uma vez por ano, levanta o volume de capital no exterior em 31 de dezembro.

O problema dos dois conjuntos de estatística é que dizem pouco sobre o destino dos investimentos. No balanço de pagamentos, não há abertura por setor e por país de destino - o BC promete começar a divulgar em 2007. No censo, divulgado ontem, o agrupamento dos dados pouco esclarece sobre destinos.

Pelos dados divulgados ontem, por exemplo, sabe-se o principal setor com capitais brasileiros aplicados é o de "serviços prestados principalmente às empresas", com R$ 23,6 bilhões. Nesse segmento, porém, estão agrupadas todas as "holdings", que investem em diferentes setores.

Em seguida, vêm o setor financeiro, com US$ 17,2 bilhões. O terceiro segmento econômico com mais investimentos diretos brasileiros, com US$ 14,9 bilhões, é o que reúne as sociedades de propósito específico (SPEs), que também dirigem os recursos para diferentes segmentos econômicos.

Entre os quatro países que mais receberam investimentos diretos brasileiros, três são paraísos fiscais - respondem por quase metade . Os paraísos fiscais, porém, são apenas intermediários dos investimentos. Os capitais terminam em outro país.

O censo esclarece pouco sobre o que levou à alta do estoque de investimentos. Pode ser a valorização dos investimentos, novos fluxos ou apenas mudança de critério contábil.

O BC reuniu dados de uma amostra de 11 empresas que declararam ao censo, cujos investimentos subiram US$ 8,9 bilhões em 2005. O levantamento mostra que, desse valor, US$ 1,9 bilhões se referem a novos investimentos; US$ 2,5 bilhões refletem apenas novos critérios contábeis, como a atualização de valores que estavam contabilizados pelo valor histórico dos investimentos; e US$ 4,5 bilhões se referem ao aumento nos valores que já estavam declarados em anos anteriores. (AR)