Título: Mercado interno atrai empresa exportadora
Autor: Landim, Raquel e Salgado, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 11/05/2007, Especial, p. A14

As exportações de celulares da Nokia, uma das maiores empresas do setor, caíram para insignificantes US$ 34 milhões no primeiro trimestre deste ano. Em contrapartida, a participação da companhia no mercado interno brasileiro cresceu 15 pontos percentuais, atingindo 29%, o que significa o topo do ranking nacional de celulares.

De sua fábrica em Manaus, a multinacional finlandesa chegou a vender US$ 1 bilhão para o exterior em 2005, criando expectativas de que o Brasil se transformaria em uma plataforma de exportação de celulares. Mas os tempos mudaram. "A exportação hoje é um complemento. Deixou de ser uma estratégia como no passado", diz o diretor-geral da Nokia, Almir Narcizo.

A fábrica brasileira, que chegou a exportar para Estados Unidos, Europa e até para a matriz na Finlândia, agora se dedicará a atender o Brasil e alguns países do Mercosul, quando houver excesso de produção. Narcizo conta que o mercado brasileiro "amadureceu", o que significa a venda de aparelhos mais sofisticados, um perfil de consumidor que interessa à companhia.

A Nokia não é um exemplo isolado. Com a combinação de câmbio valorizado e Produto Interno Bruto (PIB) que deve crescer 4% este ano, as empresas redirecionam seus esforços para o mercado interno, mais protegido da concorrência, principalmente asiática, e pelas tarifas de importação. "Especulava-se que o problema estava superado, com o surgimento de uma cultura de exportação, mas parece que voltou a ocorrer", diz Fernando Ribeiro, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).

A decisão das empresas de se voltarem mais ao mercado doméstico não está atrelada apenas ao câmbio pouco favorável à exportação. Reflete, também, uma mudança da demanda interna, que vêm se mostrando mais aquecida há algum tempo. "Não é só que o dólar não compensa mais. Isso é só um lado da história. O mercado interno está aquecido e há um investimento forte em capacidade na indústria nacional, que, ainda assim, não consegue atender toda a demanda e o complemento está vindo das importações", explica Juan Jensen, chefe do departamento de macroeconomia da Tendências Consultoria Integrada.

O setor automotivo é o caso mais emblemático. Nos 12 meses acumulados até abril, a produção de veículos cresceu 3,6%, os licenciamentos aumentaram 12,4%, mas as exportações caíram 9,8%, conforme a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Dados da Funcex demonstram que, nos 12 meses até março, a quantidade de veículos exportada caiu 15% - o dado exclui os efeitos do reajuste de preços. Não por acaso esse setor, junto com têxtil, é um dos mais protegidos do país, com tarifa de 35%.

"Essa é gangorra da economia brasileira", diz Rogelio Golfarb, diretor de assuntos corporativos para a América do Sul da Ford. Ele lembra que, em 2003, o mercado doméstico estava estagnado e a saída foi exportar com incentivo da desvalorização do real. O cenário, hoje, se inverteu. As vendas da Ford no Brasil chegaram a 80,2 mil veículos no primeiro quadrimestre, alta de 26% em relação a janeiro a abril de 2006. O market-share subiu de 11,6% para 11,9%.

Segundo Golfarb, a participação da exportação nas vendas da empresa deve cair de 50% em 2006 para 40% este ano. O executivo conta que a Ford concentrou os embarques em México e Argentina, já que a América Latina se tornou um foco de crescimento mundial da indústria automotiva. "E no momento em que esses mercados crescem, estamos diminuindo o volume exportado", diz. Ele avalia que o real forte apenas evidenciou problemas de competitividade como carga tributária e custo do crédito.

Essa ênfase no mercado doméstico em detrimento do estrangeiro acontece em vários segmentos industriais. No acumulado de 12 meses até março, a quantidade exportada recuou 4,9% nos móveis, 13% nos têxteis e vestuário, e subiu apenas 1,8% em máquinas, conforme a Funcex. Já os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (IBGE) indicam aumento de produção de 13% nos móveis, 0,5% nos tecidos, queda de 3% no vestuário, alta de 15% em máquinas.

A Eliane, que fabrica revestimentos cerâmicos, exportava, no início do ano passado, entre 48% e 45% de sua produção. Agora em 2007, esse percentual está em 40%. E a meta, segundo o presidente-executivo da empresa, Edson Gaidzinski, é reduzir para 35% até o fim do ano. Isso porque, de um lado, a rentabilidade das vendas externas diminuiu. E, de outro, com o forte crescimento do mercado imobiliário e a perspectiva de investimentos em infra-estrutura, a Eliane resolveu apostar alto no mercado interno. "É a primeira vez, desde que começamos exportar, em 1984, que buscamos reduzir a participação das exportações nas nossas vendas. Queremos aproveitar a alavancagem que está ocorrendo na construção civil", explica Gaidzinski. Neste primeiro trimestre, as vendas da Eliane cresceram 6% em relação ao mesmo período de 2006. E essa alta foi fruto exclusivo da demanda interna, já que as vendas externas, em volume, ficaram estáveis.

O "boom" da construção civil favorece também o setor de móveis. De acordo com Dorvalino Lovera, diretor-administrativo e financeiro da Móveis Carraro, as vendas de painéis, produto destinado ao mercado interno, aumentaram 8% no ano passado. "Esse começo de ano está um pouco parado, mas é sazonal, porque o forte das vendas é no segundo semestre", diz o executivo. "Estamos apostando que as vendas vão melhorar por conta do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)", diz.

Já as exportações da empresa caíram pela metade em 2006. A Móveis Carraro deixou de vender para os Estados Unidos, que até então era o seu principal mercado. Por conta dessa decisão, desativou uma de suas unidades em Bento Gonçalves (RS). "Era muita concorrência nos Estados Unidos: China, Vietnã, Leste Europeu", diz Lovera. A fatia da exportação na produção da empresa de móveis caiu de 25% em 2005 para os atuais 15%.

Antes desse ciclo de fortalecimento do real e da mudança do motor da economia para o mercado interno, a participação da exportação na produção brasileira estava batendo recordes. Em 2004, as vendas externas chegaram a representar 42% da produção de autopeças e 34% de móveis. Em 2005, atingiu 29% em equipamentos eletrônicos, 27% em automóveis e 76% em calçados. Mas os dados mais recentes desse indicador da Funcex mostram que o percentual começou a cair. No primeiro semestre de 2006 em relação a igual período de 2005, o peso das exportações na produção caiu de 23% para 22% em veículos; de 29% para 25% em móveis, de 28% para 23% em equipamentos eletrônicos.

Ribeiro afirma que o mais preocupante é que, por conta do câmbio valorizado, os fabricantes de manufaturados concentram a produção no mercado interno e não investem para manter sua participação no mercado externo, que também atravessa um bom momento, devido ao aquecimento da economia mundial. Esse comportamento pode dificultar uma reação dos produtos brasileiros lá fora quando as condições macroeconômicas melhorarem. Nesse contexto, fica mais distante o sonho do país de se transformar em uma plataforma de exportação.