Título: Câmbio e demanda podem atrapalhar o PAC, dizem ministros
Autor: Santos, Chico e Góes, Francisco
Fonte: Valor Econômico, 15/05/2007, Brasil, p. A4

Apesar do discurso otimista externado na semana passada, durante o primeiro balanço quadrimestral do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o governo está preocupado com obstáculos à concretização do programa. Ontem, durante a abertura do XIX Fórum Nacional, os ministros Guido Mantega e Dilma Rousseff, da Fazenda e da Casa Civil, respectivamente, revelaram suas preocupações. Para Mantega, o câmbio pode ser um obstáculo; para Dilma, a preocupação é a demanda aquecida pelos serviços de engenharia.

Mesmo com um discurso bem mais suave do que o anterior à reforma ministerial e ao pito do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra o bate-boca público da sua equipe, Mantega apresentou o "câmbio valorizado" como o primeiro ponto da lista de obstáculos à concretização dos objetivos do PAC. O ministro ressalvou que a sobrevalorização do real precisa ser vista com cuidado porque ela ocorre, basicamente, em relação ao dólar norte-americano, enquanto em relação ao euro o real está estável já faz tempo.

"Mesmo assim nós temos que entender que há uma sobrevalorização do real. As causas dessa valorização são, em primeiro lugar, um saldo comercial muito favorável, em segundo lugar a arbitragem de taxas de juros (aproveitando os juros internos elevados) e terceiro a melhora dos fundamentos macroeconômicos que atrai investimentos e crédito", disse o ministro. Mantega chegou a dizer que (diante da valorização cambial) ele não sabia se lamentava ou festejava o recente aumento do investimento estrangeiro direto (IED) no país.

Dilma, na apresentação feita no mesmo Fórum, reprisando o balanço do PAC, reconheceu que um dos problemas a serem enfrentados pelo programa é o aquecimento do mercado na área de projetos de engenharia e de meio-ambiente. "Esse é um bom problema", disse a ministra. Ela afirmou que o governo já detectou o aumento na demanda por este tipo de serviço. E reconheceu que a demanda a ser impulsionada pelo PAC obrigará o governo a trabalhar para eliminar gargalos em setores diferenciados da economia. "Teremos que saber conduzir a questão com tranqüilidade, mas de forma precisa para não inviabilizar nem onerar os projetos", disse Dilma.

No restante da sua apresentação, apresentação, a ministra fez a defesa do PAC, destacando os resultados iniciais do programa. Disse que das 1.646 ações previstas no programa, 734 referentes a estudos e projetos e 912 correspondentes a obras propriamente ditas, "91,6% estão com andamento satisfatório". Ela disse que entre as obras, 52,5% estão com cronograma em dia e têm riscos eventuais administrados; 39,1% estão em dia mas com risco potencial ou pequeno atraso e 8,4% estão atrasadas ou com elevado risco. Em relação ao futuro do PAC, ela previu: "Espero melhorias, o programa pode melhorar em todos os aspectos."

Na seqüência da sua peça de defesa do PAC, Dilma enfatizou: "Não é uma peça de marketing, mas uma peça crítica de gestão." Afirmou ainda que é fundamental que esse processo (de planejamento e investimento) envolvendo Estados e municípios seja renovado. O tema, segundo ela, não estava na pauta do governo nos três níveis (União, Estados e municípios). "Tínhamos que fazer um ajuste que levou à estabilidade econômica. Hoje temos margem macroeconômica para desenvolver o PAC sem ameaçar a inflação e a consistên- cia fiscal", afirmou.

A ministra informou que até o fim deste mês o governo concluirá as reuniões com os Estados para discutir estudos e projetos nas áreas de saneamento e habitação. O objetivo é ter projetos "estruturantes e robustos", salientou. "Vamos contratar entre junho e julho todas as obras de saneamento e habitação (popular)", adiantou.

O ministro da Fazenda também foi conciliador e otimista na maior parte da sua fala e na pequena entrevista que deu ao final. Disse que no combate à sobrevalorização da moeda não se pode querer tomar como parâmetro o valor do dólar em 2003 e 2004. E ironizou: "Muita gente tem saudade do câmbio de R$ 3,50, de R$ 2,90... aquele câmbio é de um tempo que a economia era fraca. A moeda era fraca porque a economia era fraca. Hoje temos um quadro completamente diferente, a economia é mais forte".

Mantega prosseguiu na defesa das ações do governo dizendo que o combate à sobrevalorização está sendo feito com a redução das taxas de juros internas, "respeitados os aspectos do programa de metas inflacionárias". Segundo ele, o aumento das importações, gerado pelo câmbio favorável e pelo crescimento da demanda interna também ajuda a regular o fluxo de moeda estrangeira, E, finalmente, o ministro destacou também como ponto favorável da situação cambial o aumento das reservas cambiais do país que "cresceram de forma extraordinária".