Título: Itália planeja importar gado vivo de Santa Catarina
Autor: Rocha, Alda do Amaral
Fonte: Valor Econômico, 15/05/2007, Agronegócios, p. B12
O esperado reconhecimento de Santa Catarina como área livre de febre aftosa sem vacinação pela Organização Internacional de Saúde Animal (OIE) deve criar um novo negócio para o Brasil. De início pequeno, mas com sinais promissores: a exportação de gado bovino para engorda para a Itália, um país que importa cerca de 50% dos animais que abate em seus frigoríficos.
Hoje, esse tipo de comércio entre o Brasil e Europa não existe porque o bloco só autoriza a compra de animais vivos de áreas livres de aftosa sem vacinação. O principal mercado para o gado vivo brasileiro - basicamente do Pará e do Rio Grande do Sul - atualmente é o Líbano, que tem exigências menores que a União Européia.
Há seis anos sem vacinar, Santa Catarina já obteve o reconhecimento de livre de aftosa sem vacinação da Comissão Científica para Doenças Animais da OIE , em março passado, e a expectativa é de que o novo status seja confirmado na sessão geral da entidade, a partir do dia 20 deste mês, em Paris.
A obtenção da nova condição sanitária de Santa Catarina permitirá ao grupo italiano Incontra, que atua no comércio internacional e na engorda de gado bovino, colocar em prática um projeto iniciado há cerca de dois anos, visando a busca de novos países fornecedores de gado vivo para a Itália. No alvo do grupo está exatamente Santa Catarina, onde a maior parte do gado criado para abate é de linhagens européias.
De acordo com Fulvio Fortunati, diretor da Incontra, a Itália importa 2 milhões de cabeças de gado bovino por ano, principalmente da França, Alemanha e Polônia. O abate total na Itália foi de 3,9 milhões de cabeças em 2006, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). No Brasil, apenas o Marfrig abateu sozinho 1,5 milhão de cabeças no ano passado.
A Itália tem de importar animais vivos, explica Fortunati, por conta da pouca disponibilidade de área para criação. "Cerca de 50% da pecuária se concentra no norte do país", diz ele, que esteve no Brasil mês passado, no Congresso Internacional da Carne.
Mas os italianos não podem mais depender dos países fornecedores de gado da própria UE, já que a produção está em queda no bloco em função da redução dos subsídios à agricultura. Santa Catarina é vista como opção para os italianos, que também têm feito esforços para voltar a comprar carne suína do Estado. Hoje, nenhum Estado brasileiro pode vender o produto à UE por causa de casos de peste suína no passado.
Fortunati estima que, inicialmente, a Itália pode importar cerca de 15 mil animais por ano de Santa Catarina. O gado, das raças limousin e charolês (as mesmas criadas na Itália), seria embarcado com idade entre 6 e 13 meses.
Apesar de otimista quanto ao esperado reconhecimento de Santa Catarina como área livre de aftosa sem vacinação, o executivo italiano observa que para as importações se concretizarem será necessário o envio de uma missão de veterinários da UE para inspecionar a produção no Estado e autorizar o comércio.
Além disso, ele reclama que as tarifas de importação para o gado bovino vivo na União Européia são muito elevadas, o que dificultaria a operação neste momento: 10,2% mais 93,1 euros por 100 quilos. Para efeito de comparação, em São Paulo, o preço do bezerro com 12 meses e 210 quilos é R$ 430 por cabeça, segundo a Scot Consultoria.
Pedro de Camargo Neto, presidente da Abipecs (reúne exportadores de carne suína) e especialista em pecuária, afirma que existe interesse do governo italiano em que as importações de Santa Catarina sejam concretizadas. Por isso, avalia, medidas como a criação de cotas de importação para o gado catarinense podem ser tomadas para viabilizar as operações.