Título: Obra própria puxa crescimento de fabricantes em 9%
Autor: Boechat, Yan
Fonte: Valor Econômico, 25/05/2007, Empresas, p. B8

A pequena casa de 80 metros quadrados que a faxineira Raimunda da Silva Gonçalves está construindo na cidade dormitório de Itapecirica da Serra, na Grande São Paulo, ainda é mais importante para empresas como a Quartzolit, a Amanco ou a Tintas Coral do que os 1,8 mil apartamentos que a Gafisa lançou no primeiro trimestre desse ano. Mesmo en tempos de expansão frenética das construtoras, ainda são pessoas como Raimunda, que só aceita ser chamada de Santa, que estão fazendo com que a indústria de materiais de construção comemore nesse mês de abril o período mais longo de crescimento contínuo dos últimos cinco anos. No acumulado dos quatro primeiros meses de 2007, esse setor teve uma expansão no faturamento de quase 9%.

"O crescimento das incorporadoras cria um impacto psicológico muito positivo, mas é só isso", diz Carlos Augusto, presidente da Quartzolit. "O que está aquecendo de verdade a indústria de materiais de construção são as obras informais, em que a pessoa vai ao varejo ela mesma comprar o que precisa para erguer sua casa ou para reformar", diz ele.

De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção, a Abramat, a revolução pela qual vem passando as empresas de incorporação imobiliária não é grande o bastante para atingir as fabricantes de materiais. "É um crescimento concentrado, mas que está muito longe de mudar um cenário que foi construído ao longo de anos de escassez de crédito e falta de oferta para as camadas mais atingidas pelo déficit habitacional", afirma Melvym Fox, presidente da associação.

Os dez meses de expansão ininterrupta do setor levam a entidade a acreditar que 2007 fechará com um crescimento de 8% sobre 2006 e que 2008 avançará outros 12% em relação a este ano. Na opinião de Fox, mais de 70% de todo esse crescimento vêm de obras como a que Raimunda está fazendo. Reflexo de um país que tem 50% de sua economia na informalidade, a constatação de que é o chamado mercado formiguinha que ainda movimenta a indústria também deixa claro que há um espaço enorme a ser ocupado pela construção formal.

De acordo com um estudo organizado pela consultoria Booz Allen para a Abramat em 2003, mais de 80% das casas novas no Brasil são construídas de forma independente por pessoas físicas. Em alguns segmentos econômicos, como nas classes C, D e E, esse índice chega a incríveis 95%. De acordo com a própria entidade, os números pouco mudaram. "Esses índices se mantém atuais para nós", diz Fox.

Na Quartzolit, que produz argamassas e rejuntes, 95% das vendas vêm do varejo. As Tintas Coral vendem apenas 12% do que produzem para as construtoras. E na Amanco, que fábrica tubos e conexões, cerca de 70% do segmento predial - que representa também 70% de seu faturamento - vai para o varejo. "A verdade é que a indústria ainda vive de pequenas e médias lojas de bairro, nem é no grande varejo que concentramos as vendas", diz Marcos Bicudo, presidente da Amanco.

O exemplo dessas três empresas se repete em maior ou menor grau na indústria como um todo. "Esse é um reflexo de um país com uma carga tributária extremamente alta, principalmente na mão-de-obra", diz Ana Maria Castelo, coordenadora da área de construção civil na FGV Projetos. Com o aumento da participação das construtoras no segmento de média e baixa renda a tendência é de que essa relação comece a mudar, mas ninguém aposta que isso aconteça no curto prazo. "No México, onde as construtoras cresceram muito a participação, isso ainda existe, houve um redução brutal, mas esse mercado calcado na construção informal ainda é grande", diz João Cláudio Robusti, presidente do Sinduscon de São Paulo. Ele estima que existam 170 mil empresas e profissionais atuando na informalidade hoje no Brasil.

Para as indústrias, essa não é uma questão primordial. O que importa é que o setor está crescendo, e basicamente por conta da expansão do segmento imobiliário. Segundo a Abramat, os números registrados até agora tem pouca ou nenhuma relação com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal.

Esse crescimento está atrelado a três fatores. O primeiro, a queda da taxa de juros. O segundo, um crescimento de renda das classes C, D e E. E o terceiro, e principal, uma expansão inédita do crédito imobiliário. Neste ano, entre recursos da caderneta de poupança e do FGTS, cerca de R$ 20 bilhões serão contratados para a construção, reforma ou compra de um novo imóvel no Brasil.

Por conta de todo esse aquecimento, a Eternit está ampliando a linha de produção de telhas de fibrocimento e investindo R$ 15 milhões para atender a demanda. Hoje a companhia trabalha com a capacidade quase esgotada. "Vamos ampliar em 10% a produção para conseguirmos acompanhar a demanda", diz Élio Martins, presidente da Eternit. Como nas outras empresas do setor, apenas 10% da produção da companhia vai para as construtoras formais. O resto é vendido no varejo.

E é exatamente lá, no varejo, que pessoas como a faxineira Raimunda estão comprando os insumos para suas obras. Sua história é quase emblemática; e repetida aos milhares por todo o país. Depois de 10 anos juntando dinheiro, conseguiu comprar um terreno de 250 metros quadrados por R$ 14 mil, a maior parte financiados por uma empresa de loteamentos. Com crédito conseguido junto a um banco, iniciou as obras.

Ainda falta bastante para que ela se mude para a nova casa. Compra os materiais como e quando pode nas pequenas lojas de Itapecirica da Serra. As obras estão sendo feitas pelo marido e pelo cunhado. "Vamos devagar, mas finalmente estou conseguindo construir meu lugar", diz ela, que há 20 anos deixou a cidade cearense de Iguatu para vir para São Paulo.

Raimunda nunca ouviu falar em oferta pública de ações e sua renda familiar mensal não chega a R$ 2 mil, mas, por conta dessas peculiaridades tão típicas do Brasil, pelos próximos anos ela continuará sendo mais importante para os fabricantes de materiais de construção do que as agora bilionárias incorporadoras que foram à bolsa.