Título: Faltam recursos de longo prazo e para inovações
Autor: Carvalho, Maria Christina
Fonte: Valor Econômico, 31/05/2007, Finanças, p. C10
A estabilidade macroeconômica e aperfeiçoamentos institucionais melhoraram a disponibilidade de recursos para as empresas no mercado de crédito e de capitais.
Mas, a oferta de dinheiro ainda está longe do desejável em volume, custos e prazos. Essa foi a conclusão dos professores Marcio Nakane e Dante Mendes Aldrighi, do Departamento de Economia da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), reunidos ontem pelo professor Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, no seminário "O Brasil no século 21". O seminário terminou abruptamente com a ameaça de invasão do auditório da FEA por participantes do movimento grevista da USP.
Para Nakane, incumbido de analisar a oferta de crédito bancário, faltam recursos de longo prazo, maior acesso às pequenas e médias empresas, financiamento a inovações tecnológicas e ao setor imobiliário.
O economista da FEA e consultor da RiskOffice, Carlos Antonio Rocca, um dos debatedores do seminário, notou que o mercado de capitais acaba "oferecendo mais soluções do que os bancos" uma vez que já financia investimentos em tecnologia de ponta e tem novas alternativas para o setor imobiliário na securitização.
Aldrighi afirmou, porém, que há limites para o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro. Um deles é o fato de as empresas brasileiras ainda terem predominantemente controle familiar. "Com 46% do capital, os controladores dominam em média 71% dos direitos de voto das companhias", disse Aldrighi, fazendo referência a pesquisa que acaba de elaborar com Mazer Neto.
O professor se pergunta se a expansão das ofertas iniciais de ações (IPOs na sigla em inglês) vai mudar a situação, uma vez que as empresas que estão abrindo o capital têm enfatizado a preocupação com a governança corporativa e optando, em sua maioria, por lançar ações no Novo Mercado da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).
A expectativa, disse, é que a iniciativa da Bovespa de criar níveis diferenciados de governança corporativa, com adesão voluntária das empresas, acabe criando "uma seleção natural".
Outro limite é a participação acanhada dos fundos de pensão e fundos mútuos nos investimentos em ações. Dos R$ 358,6 bilhões do patrimônio dos fundos de pensão, por exemplo, cerca de 65% ainda estão investidos em renda fixa, incluindo títulos públicos.
De toda forma, segundo dados apresentados por Aldrighi, foram levantados no mercado de capitais R$ 120,2 bilhões em 2006.
Na área de crédito bancário, o custo do dinheiro, isto é, as taxas de juros, ainda representam o segundo maior obstáculo à expansão das empresas, depois dos impostos, disse Nakane, citando pesquisa feita pelo Banco Mundial. O acesso ao financiamento ficou em sétimo lugar: e, em quarto, ficou a corrupção.