Título: Interesse dos EUA permitirá acordo na OMC
Autor: Balthazar, Ricardo
Fonte: Valor Econômico, 18/06/2007, Especial, p. A18

Os ministros envolvidos com as negociações da Rodada Doha de liberalização comercial já anunciaram tantas vezes que estavam perto de um acordo que muita gente cansou de esperar. Nesta semana eles estarão de volta com uma série de reuniões em Potsdam, na Alemanha, mas um dos maiores especialistas do mundo nesse assunto acha que é bom prestar atenção desta vez.

Para o economista indiano Jagdish Bhagwati, as discussões chegaram a uma etapa decisiva por uma razão simples. Os Estados Unidos perceberam que correm o risco de perder oportunidades comerciais valiosas se não fecharem logo um acordo que permita destravar as negociações e vencer resistências localizadas no Congresso americano.

Dentro de duas semanas expira a autorização legislativa especial de que a Casa Branca precisa para negociar acordos nessa área. Conhecida como Autoridade para Promoção Comercial (TPA, na sigla em inglês), ela só será renovada se os congressistas acharem que os benefícios econômicos da Rodada Doha compensarão as concessões que os EUA serão obrigados a fazer.

Para Bhagwati, a chave que pode destravar as negociações está na mão dos americanos. "Os Estados Unidos têm exigido o máximo de países como o Brasil e a Índia, mas têm feito concessões mínimas", disse ao Valor. "Eles precisam cortar mais seus subsídios agrícolas se quiserem obter maiores concessões dos países em desenvolvimento."

Bhagwati acompanhou de perto as negociações que levaram à criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) no início da década de 90 e assessorou a instituição até recentemente. Com 72 anos de idade, estabeleceu-se há vários anos nos EUA. Bhagwati é professor na Universidade Columbia e trabalha no Conselho de Relações Exteriores, um influente centro de estudos americano.

O economista ganhou prestígio nos últimos anos vendendo um conceito simples, que ainda desperta controvérsia. Bhagwati acredita que os países em desenvolvimento têm mais a ganhar com a abertura de seus mercados do que imaginam os críticos da globalização. Publicado em 2004, o livro "Em Defesa da Globalização" é um resumo acessível de suas idéias.

Ele agora anda preocupado com a intensidade dos sentimentos protecionistas em países como os EUA. É o assunto de seu próximo livro, que deve ser publicado em setembro. Bhagwati teme que o processo de abertura comercial em curso seja interrompido por causa do medo que a acirrada competição internacional dos dias de hoje tem disseminado no mundo. Para ele, uma freada a esta altura seria especialmente ruim para nações em desenvolvimento como Brasil e Índia. O economista recebeu o Valor em seu escritório no centro de Nova York, a um quarteirão do Central Park.

Valor: As negociações para a retomada da Rodada Doha parecem ter chegado a uma etapa decisiva. Essa conversa tem algum futuro?

Jagdish Bhagwati: Os Estados Unidos têm exigido o máximo de países como o Brasil e a Índia, mas têm feito concessões mínimas. Não é uma estratégia sensata para concluir a rodada. Mesmo assim, estou otimista. Os americanos começaram a perceber que o sucesso das negociações é do seu interesse. O governo precisa de avanços nas discussões da rodada para convencer o Congresso a renovar a TPA. Se a rodada fracassar, o Congresso deixará a autorização expirar, outros países começarão a negociar acordos bilaterais e regionais, e os EUA ficarão de fora, sem poder fazer nada para evitar os prejuízos que suas empresas irão sofrer.

Valor: O que é preciso fazer para romper o impasse atual?

Bhagwati: Há muito espaço para melhorar a proposta dos EUA na área agrícola. Seria impossível obter apoio do Congresso para reduzir a ajuda do governo aos agricultores americanos. Mas eles poderiam mudar a composição dos subsídios, diminuindo os recursos disponíveis para incentivos que distorcem o comércio agrícola e transferindo esse dinheiro para programas de conservação ambiental e outras iniciativas. Muitas pessoas acham que os americanos continuariam trapaceando mesmo assim, mas nesse caso eles poderiam ser processados na OMC, como o Brasil demonstrou com a ação contra subsídios do algodão.

Valor: Países em desenvolvimento como o Brasil e a Índia não poderiam abrir mais seus mercados para produtos importados, como os americanos têm insistido?

Bhagwati: Há pouco mais de uma década a média das tarifas de importação em vigor na Índia para produtos industriais era de 75%. Hoje elas estão em 10%. Não me parece tão ruim assim. O governo indiano fez novos cortes em algumas tarifas no início do ano. Mas é inútil esperar que a Índia possa baixar as tarifas que protegem sua agricultura. Seria politicamente inviável dizer aos agricultores indianos que a partir de agora terão que competir diretamente com os americanos e seus bilhões de dólares em subsídios. Os Estados Unidos precisam cortar mais seus subsídios agrícolas se quiserem obter maiores concessões dos países em desenvolvimento.

Valor: Vale a pena insistir com a Rodada Doha mesmo se os benefícios do acordo final forem modestos como parece que eles serão?

Bhagwati: Um acordo mínimo não deve ser visto como um fracasso, mas como parte de um processo que deve ser contínuo. Nas rodadas anteriores, nossos mercados não eram importantes. Mas o Brasil, a Índia e a China cresceram e é por isso que a reciprocidade se tornou tão importante nessas negociações. Nossos mercados se tornaram muito grandes e o risco de perdê-los também. Isso nos dá a habilidade de jogar duro com quem jogar duro com a gente.

Valor: Os ganhos com uma integração maior na economia mundial não poderiam compensar os prejuízos dos setores mais frágeis?

Bhagwati: A liberalização do comércio garante ganhos para todo mundo, mas isso não significa que os riscos não existam. Esta é a primeira vez que países como o Brasil e a Índia estão discutindo o assunto a sério. Eles estão interessados, e não precisam de ninguém para empurrá-los. Mas não temos uma rede de segurança, não temos as instituições que qualquer país precisa ter para sustentar uma economia mais aberta. Precisamos de programas de ajuste que ajudem empresas e trabalhadores afetados por uma maior abertura a se adaptar às mudanças. Alguns colegas acham que a solução é interromper o processo de abertura comercial para evitar demissões e outros efeitos indesejáveis. Discordo. Se nossos países não se arriscarem, também não terão os benefícios. A saída é criar mecanismos que possam ajudá-los a tomar mais riscos.

Valor: O medo desses riscos justifica a intensidade dos sentimentos protecionistas no mundo hoje?

-------------------------------------------------------------------------------- Um acordo mínimo não deve ser visto como um fracasso, mas como parte de um processo que deve ser contínuo. " --------------------------------------------------------------------------------

Bhagwati: A criação da OMC jogou areia nas engrenagens do protecionismo. Quem quiser impôr barreiras precisa seguir as regras. O que me preocupa não é o risco de uma volta ao protecionismo do passado, mas a falta de liderança para mover o sistema para frente. A intensidade da competição está assustando as pessoas. Em quase toda atividade, a margem de vantagem comparativa que daria uma sensação mínima de segurança às empresas diminuiu. Elas precisam ser capazes de cortar pessoal e se adaptar rapidamente a novas situações em que sempre há alguém prestes a ultrapassá-las. Essa é a natureza do comércio internacional hoje. Empresas e trabalhadores estão conscientes da competição e percebem que ela pode vir de qualquer lugar.

Valor: O avanço da China tem gerado pressões para a imposição de barreiras contra produtos chineses nos EUA, no Brasil e em outros países. Onde isso pode chegar?

Bhagwati: Não muito longe. Muitas pessoas comparam o que estamos vendo com as reações provocadas pela expansão das empresas japonesas na década de 80, mas há diferenças importantes. O Japão não tinha investimento estrangeiro. Grande parte do crescimento da China é resultado de investimentos de multinacionais que usam o país como plataforma de exportação. Isso significa que muita gente nos EUA tende a se opor às pressões protecionistas. O Japão era um produtor de alta tecnologia. A China não está inventando nada muito relevante e, por ser um país autoritário, enfrenta dificuldades para avançar na área de tecnologia da informação.

Valor: O protecionismo está crescendo em todos os países?

Bhagwati: Não. Ele está aumentando de forma preocupante nos EUA, na França e na Alemanha. Mas não vejo a mesma coisa acontecendo em outras partes do mundo. Em todos os lugares a que tenho ido, os governos estão buscando a melhor maneira de lidar com a globalização e não têm dúvidas sobre os benefícios que tiveram com a integração na economia global.

Valor: Seu colega Alan Blinder calcula que 40 milhões de americanos poderão perder seus empregos no setor de serviços nas próximas décadas por causa do avanço das tecnologias na área de telecomunicações e na internet. Por que o senhor acha que ele está errado?

Bhagwati: Há alguns anos o diretor de um grande hospital americano previu que milhares de radiologistas iriam para a rua, porque seu trabalho passaria a ser feito em lugares como Bombaim, na Índia. Era só digitalizar as chapas de raio X, mandar pela internet e esperar a análise chegar. O que aconteceu foi que nenhum radiologista perdeu o emprego. Normas impostas pela associação dos médicos dizem que os hospitais só podem aceitar diagnósticos feitos por médicos certificados nos EUA. A opinião de um radiologista indiano não é aceita aqui se ele não tiver essa certificação. Apenas duas empresas na Índia fazem esse tipo de serviço hoje e elas só trabalham à noite e fins de semana, quando os médicos daqui vão para a praia.

Valor: Esse é só um exemplo.

Bhagwati: Mas ele mostra duas coisas importantes. A primeira é que existem restrições importantes que devem ser levadas em conta. A capacidade que associações profissionais como a dos médicos têm para manter a concorrência fora do mercado é enorme. Em segundo lugar, o caso dos radiologistas mostra que em muitas situações os benefícios dos avanços tecnológicos são maiores para os países ricos. Um serviço que antes não era feito, como a análise das chapas de raio X no fim de semana, tornou-se possível e ninguém perdeu o emprego por causa disso.

Valor: Outras profissões podem não ter a mesma sorte.

Bhagwati: Um amigo sociólogo me disse uma vez que eu deveria me preocupar, porque um dia alguém em Nova Déli vai dar minhas aulas pela internet e vou virar um mero assistente do sujeito. Eu disse para ele relaxar. Quem quer escutar alguém de Nova Déli? Os alunos querem escutar os professores daqui, e muitos economistas indianos, como eu, estão aqui, por causa das oportunidades que o meio acadêmico americano oferece.

Valor: Mas essa situação pode mudar um dia, não é verdade?

Bhagwati: O que estou querendo dizer é que a idéia de que milhões de empregos vão desaparecer no setor de serviços nos EUA é um exagero. Países como o Brasil e a Índia sequer têm os recursos humanos necessários para que isso ocorra. Algumas empresas indianas vêm tendo sucesso na exportação de serviços especializados em algumas áreas, em geral operações de rotina nos escritórios das grandes empresas. Mas ainda não desenvolvemos uma capacidade semelhante para serviços de nível mais sofisticado. Algumas empresas estão se destacando nesse campo, como a Wipro e a Infosys, mas elas ainda são poucas.

Valor: Blinder sugere que os EUA passem a investir na formação de profissionais mais preparados para resistir a esses movimentos no futuro. É uma boa idéia?

Bhagwati: Como você vai adivinhar que profissões serão essas? Ninguém sabe. No fundo, é o que as pessoas sempre se perguntam, onde devem mandar os filhos estudar. Minha filha estudou literatura em Yale, passou cinco anos prestando serviço militar e agora está fazendo um curso sobre direitos humanos em Harvard. É uma garota temperamental, mas ela está sempre fazendo coisas interessantes.

Valor: O que os governos deveriam fazer a respeito disso?

Bhagwati: Em vez de defender postos de trabalho em determinadas indústrias, os governos deveriam se preocupar com a segurança dos trabalhadores. Sindicatos, universidades e governos deveriam ajudá-los a desenvolver novas habilidades e se tornar mais versáteis, facilitando sua adaptação a mudanças. Um engenheiro que trabalha na Boeing deveria ter uma formação generalista e flexível o suficiente para conseguir emprego na Toyota ou na Honda se um dia a Boeing mandá-lo embora.