Título: Argentina só aceita corte de 50% na área industrial
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Fonte: Valor Econômico, 12/06/2007, Brasil, p. A3

O Brasil irá para a reunião crucial do G-4 com respaldo para uma posição clara na área industrial: a de aceitar corte de apenas 50% nas tarifas consolidadas e de jeito nenhum os 70% exigidos pela União Européia e os Estados Unidos, segundo posição da Argentina. "Estamos sólidos, muito sólidos com essa proposta dos 50%, que já é uma barbaridade", disse o secretário de Comércio, Alfredo Chiaradia. O corte na tarifa realmente aplicada seria por volta de 26%. A média da tarifa externa comum (TEC) ficaria em 17%, segundo os argentinos.

Só que essas cifras são consideradas irrealistas mesmo por outros países em desenvolvimento. A própria indústria brasileira aceita abertura maior. Mas a Argentina e a África do Sul, especialmente defensivos, observam que os ricos barganham na área agrícola, mas na área industrial estão na base "do pegar ou largar".

"A boa vontade demonstrada na negociação agrícola não se vê na negociação industrial", reclamou o vice-ministro da África do Sul, Rob Davies. Para os europeus, o principal problema agora está na área industrial e não na agricultura. Os argentinos não dizem que vão barrar um acordo com redução tarifária maior, mas claramente não têm a intenção de pegar só para fechar um acordo. Sabem que o equilíbrio da negociação passa por uma combinação de concessões em várias áreas.

O Brasil e a Argentina participam do Nama-11, um grupo especialmente defensivo na área industrial. As posições da Argentina e da África do Sul são consideradas as mais duras. No caso da Argentina, a explicação é que o país quer manter maior margem para recuperar sua indústria. O Nama-11 quer que os industrializados aceitem uma fórmula com coeficiente 10, pelo qual cortariam significativamente suas tarifas já baixas. Já as nações em desenvolvimento cortariam com base no coeficiente 35.

Ocorre que até as indústrias brasileira e indiana admitem coeficiente 25, que dá corte por volta de 60%. Além disso, há as flexibilidades, para proteger setores sensíveis, por exemplo cortando bem menos as alíquotas para 10% das linhas tarifárias. "Quando os países ricos dizem aos países em desenvolvimento para cortarem suas tarifas em 70% e eles próprios só querem reduzir em 25%, claramente isso não é justo nem equilibrado", comentou Chiaradia.

Enquanto o Brasil admite acordos setoriais, que implicam liberalização maior em determinadas áreas, a Argentina diz não ter tomado posição. A posição do Brasil é delicada, porque negocia no G-4 sem revelar o que está na mesa, como acertado entre os quatro. É que, se a rodada fracassar, tudo que está sendo discutido some. Ontem, a Tanzânia reclamou de falta de transparência. A Argentina também não vê com bons olhos o atual processo negociador.

Está claro que a Argentina ganha na área agrícola, como o Brasil. As margens de preferências de muitos países vão cair, o que é bom para os sócios do Mercosul, e será menos importante ter acordos bilaterais. Mas na área industrial, Buenos Aires ainda terá muito a dizer na rodada na OMC. (AM)