Título: G-8 e G-5 buscam aparar as arestas no 2º semestre
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 11/06/2007, Internacional, p. A9

Representantes dos principais países industrializados e do G-5 (os cinco grandes emergentes: Brasil, China, Índia, África do Sul e México) se reunirão no segundo semestre para tentar superar o mal-estar e a desconfiança deixados no encontro de cúpula do G-8 em Heiligendamm (Alemanha).

O G-8 deflagrou um mecanismo para envolver mais esses emergentes na governança global, mas a maneira como agiu em Heiligendamm demonstrou a pouca intenção de tomar em consideração a posição de Brasil, China, Índia, África do Sul e México.

Essa visão pareceu especialmente forte na briga sobre responsabilidade de cada um no combate ao aquecimento do planeta, que tem a ver com competitividade econômica, desenvolvimento e transferência de tecnologia.

Já na quinta-feira à noite, antes de seu encontro com o G-8, os emergentes descobriram que o comunicado dos países industrializados sobre mudanças climáticas dava a entender que o G-5 tinha aprovado seu teor, que deixou seus dirigentes irritados.

O problema é que a redação do documento pode ser interpretada como apoio à posição dos EUA de colocar em pé de igualdade os emergentes e os industrializados na responsabilidade em atacar as mudanças climáticas.

No entanto o Brasil e os outros emergentes insistiram que não aceitavam metas específicas de redução de emissões que afetem seu desenvolvimento econômico.

Em comunicado conjunto da presidência alemã do G-8 e de Brasil, China, Índia, África do Sul e México, os emergentes se dizem prontos a contribuir de maneira proporcional para estabilizar as emissões, mas sempre no âmbito multilateral e de forma "flexível".

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva advertiu que a negociação para combater o aquecimento não deve ser um instrumento "para inibir o crescimento de economias pobres ou em desenvolvimento". O presidente da China, Hu Jintao, cobrou flexibilidades.

A questão da "proporcionalidade" será central na conferência da ONU em dezembro na Indonésia, quando se discutirá a segunda etapa do Protocolo de Kyoto. Para os americanos, não haverá acordo se os emergentes recusarem metas de redução de emissões.

O segundo episódio que alimentou a desconfiança dos emergentes foi o comunicado do G-8 anunciando o aprofundamento do diálogo entre os dois blocos sobre as grandes questões internacionais. O texto foi distribuído antes mesmo que os líderes dos emergentes tenham lido ou aprovado seu teor. Na primeira linha, porém, o G-8 diz que discutiu com eles e pede a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), espécie de clube dos ricos, para fornecer a plataforma para esse novo diálogo.

As duas maiores economias em desenvolvimento, China e Índia, ficaram preocupadas, pois já tinham avisado que não aceitavam discutir no âmbito da OCDE. O Brasil também fez ressalvas, admitindo a entidade como ponto logístico apenas, mas não discutir investimentos, propriedade intelectual e desenvolvimento com base em suas convenções.

"Ficou um tremendo mal-estar. Agora é deixar a poeira passar, para restabelecer a discussão sobre as bases desse dialogo", afirmou um representante dos emergentes.

O que aconteceu no G-8 de Heiligendamm mostra os riscos dessa relação com o G-8. O Brasil e os outros emergentes passarão a ter papel maior, mas sem realmente entrar para o clube de elite que é o G-8. Assim, seus ministros serão chamados a participar da preparação do G-8 no Japão, em 2008. Isso pode ser interpretado como respaldo a posições que não se sabe como ficarão nos documentos finais.

O presidente Lula reiterou que G-8 e G-5 deveriam se reunir antes da aprovação dos documentos. Até porque o Brasil não tem intenção de vir só para as fotos oficiais.