Título: Cresce o volume de papel moeda
Autor: Ribeiro, Alex
Fonte: Valor Econômico, 11/06/2007, Finanças, p. C1
Apesar do avanço dos cartões de crédito e das novas tecnologias de pagamento eletrônico, o velho e bom dinheiro em cédulas e moedas dá sinais de vitalidade. O volume de papel moeda em poder do público cresceu 22,6% nos 12 meses encerrados em maio, segundo estatísticas divulgadas pelo Banco Central.
O BC atribui essa expansão a uma série de fatores, como a aceleração do crescimento econômico, a estabilidade da moeda, a queda das taxas de juros, a difusão do crédito e, sobretudo, o aumento da renda das camadas mais pobres da população, com pouco acesso aos meios de pagamento eletrônicos.
"Na década de 1980, depois que os bancos viveram uma onda de automação, vários especialistas anunciaram que o dinheiro iria desaparecer na virada do milênio", afirma o chefe do Departamento do Meio Circulante do BC, João Sidney de Figueiredo Filho. "O milênio já virou, e o dinheiro em papel está aí, mais forte do que nunca."
As previsões sobre o desaparecimento do papel moeda estão sendo renovadas agora, quando surgem novas tecnologias. A Visa e a MasterCard, por exemplo, anunciam que vão trazer ao Brasil os chamados cartões sem contato, que permitem fazer pagamentos de pequenas quantias por meio de ondas eletromagnéticas - o que dispensa tirar a carteira do bolso. O Banco do Brasil e outros bancos desenvolvem projetos que, no futuro, permitirão pagar compras de bens e serviços por meio do celular.
As novas tecnologias chegam ao Brasil em um momento em que o uso dos pagamentos eletrônicos vem crescendo fortemente. As transações com cartões de crédito, por exemplo, cresceram 50% em 2005.
Figueiredo acha, porém, que o crescimento do uso dos pagamentos eletrônicos não irá interromper o avanço do dinheiro em papel. Sua previsão para este ano, por exemplo, é que o volume de dinheiro em circulação na economia, que hoje equivale a 3,5% do PIB, chegue a 3,7%. Para ele, essa proporção vai continuar crescendo nos próximos anos, chegando a algum lugar entre os percentuais observados nos Estados Unidos (6,4% do PIB em 2005, segundo dados do BIS, o banco central dos bancos centrais) e no Japão (16,7%).
E por que a aposta no crescimento do dinheiro? Em primeiro lugar, porque o volume de dinheiro vem crescendo em vários lugares do mundo. Na área do euro, por exemplo, passou de 5,4% para 7,3% do PIB entre 2002 e 2005. E registra crescimento muito forte nas economias emergentes mais dinâmicas, como a China e a Índia. "Nos encontros internacionais sobre meios de pagamento, ninguém está preocupado com o fim do dinheiro", afirma. "Pelo contrário, estão todos fazendo planos, investindo em novas fábricas de dinheiro, encomendando toneladas e mais toneladas de papel moeda."
No Brasil, não é nova a tendência de expansão do dinheiro. Desde o lançamento do Plano Real, em 1994, quando o dinheiro em circulação equivalia a menos de 1% do PIB, as emissões de notas e moedas vêm crescendo a taxas médias anuais de 20%, em virtude do fenômeno conhecido como monetização. "Com a queda da inflação, caiu o custo de oportunidade de manter dinheiro no bolso", afirma o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.
Esse fator, embora não tão forte quanto nos primeiros anos do Plano Real, continua a influenciar a expansão do dinheiro. "Quanto mais a inflação fica na meta, mais confiança a população tem na moeda", afirma Lopes. A queda dos juros básicos também reduz o custo de oportunidade de manter dinheiro no bolso. Quando os juros estavam em 26% ao ano, como no começo do governo Lula, valia a pena manter mais aplicações financeiras, e menos dinheiro no bolso.
Em 2007, afirma Lopes, a expansão do volume de dinheiro na economia está sendo puxada pelo crescimento da economia. Também estão sendo observados os efeitos do crédito, que avança a uma taxa anual de 21%, e de pagamentos de benefícios sociais, como o Bolsa Família.
Em menor escala, a tributação sobre transações bancárias com a CPMF também faz com que parte da população migre para os pagamentos em dinheiro. Assim como o desejo do anonimato - que existe não apenas entre os que fazem operações ilegais, como lavagem de dinheiro. Numa era em que os cidadãos têm seus passos registrados pelos sistemas de pagamentos, parte da população prefere passar despercebida.