Título: Importação de alimentos deve bater recorde no ano
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Fonte: Valor Econômico, 08/06/2007, Internacional, p. A10
Impulsionadas pela alta de commodities agrícolas relacionadas ao maior uso biocombustíveis em diversos países, sobretudo nos Estados Unidos, as importações globais de alimentos deverão bater recorde e superar a marca de US$ 400 bilhões em 2007, quase 5% mais do que no ano passado, de acordo com relatório da FAO - braço das Nações Unidas para agricultura e alimentação - divulgado ontem.
Segundo o "Food Outlook" da FAO, a maior parte do aumento previsto será provocada pelas valorizações dos grãos forrageiros, sobretudo o milho, e dos óleos vegetais, entre os quais o etanol. Para esses grupos de produtos, a alta de preços calculada pela FAO para 2007 chega a 13% em relação a 2006. Como a maior parte da oferta dos grãos é destinada à produção de rações, o braço da ONU também confirma aumentos de preços das carnes e do leite.
Em muitos casos, como o das carnes e do arroz, as valorizações também refletem o crescimento da demanda mundial. E, para todas as commodities, também pesa o encarecimento de insumos como fertilizantes e defensivos no mercado externo e o aumento dos fretes internacionais. Do ponto de vista de custos ao consumidor, a principal boa notícia do relatório da FAO é a contínua queda dos preços do açúcar, que vive fase de oferta confortável.
De acordo com o relatório, são os países países que mais sofrerão com o aumento dos preços dos alimentos neste ano. Para este grupo, prevê, a alta dos custos com as importações deverá atingir 10%. Mas os países em desenvolvimento não ficam muito atrás - para eles, o salto previsto alcança 9%. Assim, a cesta de alimentos importados pelos países em desenvolvimento custará, no fim do ano, 90% mais do que custava na virada do milênio. Na mesma comparação, o incremento nos países desenvolvidos tende a ser de 22%.
Rico em números, o "Food Outlook" da FAO confirma que a produção mundial de cereais baterá recorde neste ano. Deverá somar 2,125 bilhões de toneladas, 6,2% mais que em 2006. Nesse crescimento, destacam-se as boas safras de milho na América do Sul - especialmente na Argentina e no Brasil - e as estimativas de vigoroso avanço da colheita nos Estados Unidos, cuja produção do ciclo 2007/08 está em franco desenvolvimento, até agora sem ameaças climáticas relevantes.
Já a demanda mundial por cereais deverá atingir 2,144 bilhões de toneladas em 2007/08, 2% acima do volume calculado em 2006/07. Apesar do maior crescimento da oferta, a FAO a considera apertada tendo em vista a crescente demanda por produtos agrícolas destinados à produção de biocombustíveis, o que, na avaliação do órgão, pressionará estoques. Resultado dessa equação é que os preços deverão seguir firmes. Nos EUA, por exemplo, a tonelada do milho saiu, em média, por US$ 159 em maio, US$ 9 a mais que em abril e US$ 48 acima de maio do ano passado.
A FAO lembra que, na temporada 2007/08, os EUA deverão usar cerca de 86 milhões de toneladas de milho para a produção de etanol. Se confirmado, o volume será 30 milhões de toneladas superior ao verificado em 2006/07. Para se ter uma idéia, a produção brasileira de milho está projetada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em 51 milhões de toneladas. Para consumo humano, a demanda americana pelos grãos forrageiros deverá alcançar 183 milhões de toneladas, apenas 1% a mais em igual comparação.
No caso das oleaginosas - que incluem a soja e são as principais matérias-primas para a fabricação de biodiesel -, a produção mundial em 2006/07 está projetada em 233 milhões de toneladas, 2% mais que na temporada anterior (2005/06). Os preços desses produtos estão em média 30 pontos percentuais superiores ao do mesmo período de 2006, em parte graças ao "contágio" da elevação do milho. Mas também a China, maior país importador de soja do mundo, tem influência sobre a valorização, uma vez que deverá produzir menos pela segunda safra seguida.