Título: Presidente da Infraero alerta para risco de apagão no transporte de carga
Autor: Jayme, Thiago Vitale
Fonte: Valor Econômico, 13/06/2007, Política, p. A10
O presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, avisou ontem que o sistema de transporte de cargas do país chega próximo ao colapso. A declaração foi dada à CPI do Apagão Aéreo da Câmara. Pereira informou também que a estatal tem obras em andamento para dar vazão à expansão do setor.
"Um apagão do transporte de carga não vai haver. Mas só porque obras serão feitas para isso. Esse setor crescer 6% ao ano. Hoje, estamos com 80% da capacidade da infra-estrutura em uso. Logo, precisamos de investimentos para não deixar acontecer um apagão", afirmou o presidente da Infraero.
Segundo Pereira, as obras em andamento agora darão, até dezembro, um aumento de 20% na capacidade do sistema de absorver o crescimento do setor. Em 2008, outras obras serão feitas. "Teremos garantias para o crescimento do setor até 2015, pelo menos", disse. As principais obras serão feitas nos aeroportos de Porto Alegre e Curitiba.
Para o brigadeiro, o sistema aéreo brasileiro sofre também com a falta de aviões. Pereira considera que existe um déficit de 80 aeronaves de grande porte no Brasil. Esse problema surgiu em função da falência da Vasp e da Varig.
A afirmação do presidente da Infraero contrasta com a dos representantes das companhias aéreas, que disseram reconhecem haver menos aviões em circulação, mas o problema é compensado com o aumento das horas de uso dos aviões e do número de lugares nas aeronaves.
Sobre as denúncias de corrupção dentro da estatal, Pereira disse que a empresa investiga todas as suspeitas e obedece a todas as determinações do Tribunal de Contas da União (TCU). Ainda assim, o brigadeiro reclamou das auditorias feitas pela corte nas obras em aeroportos.
No geral, o tribunal tem apontado preços fora do padrão para as obras. Pereira classificou como "incompatíveis" com a realidade as exigências e as recomendações por redução de preços feitas pelo TCU. O brigadeiro disse que "aeroporto não é casa popular" e "pista de pouso não é rodovia". "Portanto, o preço não pode ser popular", concluiu. Depois de ouvir Pereira, a CPI colheu depoimento do ex-presidente da Infraero e brigadeiro Eduardo Petengill, que comandou a estatal de 1998 a 2000.
A maior preocupação do ex-presidente é com a demora nas obras de melhoria da infra-estrutura dos aeroportos. "Vejo que Guarulhos, Florianópolis e Brasília estão no limite. E as obras em quase todo lugar estão paradas", disse Petengill. Para ele, a Lei de Responsabilidade Fiscal atrapalha a expansão do setor. "Ela (a lei) não impede o ladrão de roubar, mas impede o honesto de trabalhar", disse, referindo-se às várias exigências da legislação.
Petengill teve de explicar sobre as irregularidades apontadas na ampliação do aeroporto de Salvador, em 1998. Na ocasião, o TCU apontou R$ 6 milhões em superfaturamento na obra - e o ex-presidente da Infraero foi condenado a pagar multa de R$ 23 mil. Perguntado se existe um conluio entre empreiteiras para combinar preços e orçamentos apresentados em licitações, o ex-presidente da Infraero deixou a questão no ar. "Pode ser que tenha havido conluio em Salvador, por exemplo, mas eu não posso afirmar. Só posso imaginar", disse.