Título: BC da Venezuela ignora a inflação e juro fica negativo
Autor: Lamucci, Sergio
Fonte: Valor Econômico, 13/06/2007, Finanças, p. C3

A inflação na Venezuela beira os 20% no acumulado em 12 meses até maio, mas o número não tira o sono do Banco Central da Venezuela. No país comandado por Hugo Chávez, a instituição quer manter os índices de preços em níveis adequados, porém sem fazer uma política monetária contracionista que afete o crescimento e o emprego, segundo José Felix Rivas, diretor do BC venezuelano. "A meta de crescimento é tão importante quanto à de inflação", disse Rivas, que esteve no Brasil na semana passada para participar do XII Encontro Nacional de Economia Política, realizado em São Paulo.

De acordo com ele, há uma meta indicativa acertada com o Ministério das Finanças de 12,5% para o índice de preços ao consumidor, que, tudo indica, não será atingida. Mesmo assim, os juros reais continuam fortemente negativos: enquanto a inflação ao consumidor acumula alta de 19,5% nos 12 meses até maio, a taxa de juros de três meses está em 10,47% ao ano, de acordo com a The Economist. Não parece exagero dizer que se trata do oposto da política monetária brasileira. Por aqui, os juros reais estão na casa de 8% a 9%.

No país de Hugo Chávez, há também uma meta indicativa para o crescimento, definida entre 5% e 6% para este ano, número que também deverá ser superado. Segundo Rivas, o Produto Interno Bruto (PIB) avança a um ritmo de cerca de 10%. "O consumo privado cresceu 17% no último trimestre", disse ele, para quem o desempenho da demanda se deve em grande parte a fatores como a recuperação do emprego, dos salários e também aos programas sociais. Em 2006, o país cresceu 10,3%.

O diretor do BC destacou que o objetivo da autoridade monetária da Venezuela não é esfriar o ritmo de crescimento, mas sim garantir a estabilidade e a continuidade desse processo. "Não pode haver uma política monetária contracionista que tenha o expediente de mirar apenas a inflação", afirmou ele, que ressaltou falar em caráter pessoal, e não em nome do BC.

Para justificar a política do BC, Rivas disse que os principais fatores que estão operando sobre a inflação venezuelana são estruturais, relacionados à estrutura altamente concentrada de mercado, marcada pela oligopolização. "Há componentes que não correspondem apenas à política de curto prazo, mas dependem de questões de médio prazo, que não vão se resolver imediatamente", disse ele, lembrando ainda que o país tem controles de câmbio, com uma taxa fixa para a moeda americana.

Segundo Rivas, o objetivo do BC é manter os índices de preços "dentro dos parâmetros que não sejam altos em termos históricos". "A inflação nos últimos oito anos está abaixo da média dos anos 90, de 40%", afirmou ele. O índice de preços ao consumidor, que atingiu 27,1% em 2003, caiu para 14,4% em 2005, mas voltou a subir em 2006, para 17%. Neste ano, a expectativa do diretor de Pesquisa para a América Latina do WestLB, Ricardo Amorim, é de que ela fique em 20,7%.

Rivas mostrou reservas ao regime de metas de inflação, embora tenha dito que não queria, com isso, criticar o modelo brasileiro. Ele não gosta do regime por considerar que ele tende a ser mais recessivo, tendo o risco de "sacrificar as possibilidade de crescimento acelerado". "Se você cai numa posição ortodoxa de querer inflações muito baixas, tem que manter os juros muito altos. Pode ser que haja crescimento, mas principalmente o crescimento do capital financeiro."

Amorim acredita que a Venezuela deverá crescer 7,4% neste ano, podendo avançar a um ritmo até superior. Para ele, a política monetária na Venezuela tem como objetivo assegurar um crescimento acelerado, deixando em segundo plano o controle da inflação. Um sinal claro disso é o fato de os índices de preços beirarem 20% e os juros reais continuarem negativos, afirma ele. Amorim considera que não é possível atingir dois alvos - o crescimento e a inflação - usando apenas uma flecha - a taxa de juros.

Amorim critica essa política, mas acredita que ela pode se sustentar por muitos anos, desde que o petróleo continue em níveis elevados. Como a commodity domina a economia venezuelana, ele avalia que o petróleo caro pode ajudar Chávez a manter a política monetária e fiscal frouxa por muito tempo, ainda que à custa de uma inflação salgada.