Título: Produção da indústria cresce de forma desigual
Autor: Galvão, Arnaldo
Fonte: Valor Econômico, 05/06/2007, Brasil, p. A4

A produção industrial brasileira cresceu de fevereiro a abril, mas, ao contrário do que ocorreu em 2004, o movimento foi heterogêneo. As médias estão influenciadas pelo aquecimento do segmento sucro-alcooleiro e, além disso, o câmbio prejudica o faturamento do setor. Somente em abril, a moeda brasileira valorizou-se 2,7% frente ao dólar, reduzindo a rentabilidade das exportações. As perspectivas do câmbio para este ano são desanimadoras para as vendas externas.

Esses são os principais destaques do economista Paulo Mol, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), ao analisar os indicadores do setor no mês de abril. A CNI mostrou que o emprego industrial cresce há 17 meses consecutivos e a remuneração paga aos trabalhadores do setor eleva-se há 12 meses. As horas trabalhadas na produção aumentam sem parar de fevereiro a abril. Quanto às vendas, foi registrada queda na comparação com março.

O uso da capacidade instalada da indústria, em abril (82%), está dois pontos percentuais acima da média do ano passado (80,6%). Na análise do economista, esse comportamento pode ser revelador do aumento dos investimentos e da elevação da produção de bens de capital. No período janeiro-abril, as vendas reais da indústria foram 4,8% maiores que as do mesmo período do ano passado. Aproximadamente 80% desse desempenho esteve concentrado em cinco setores: alimentos/bebidas, máquinas/equipamentos, químicos, metalurgia e refino de petróleo/álcool.

As horas trabalhadas na produção elevaram-se 3,6% sobre os quatro primeiros meses de 2006, sendo que 2,8 pontos percentuais (80%) vieram de alimentos e bebidas. O emprego industrial também mostrou, no quadrimestre, aumento de 3,4%, novamente influenciado por alimentos/bebidas (2,2 pontos percentuais). As remunerações pagas aos empregados cresceram 6,7% no período.

Se o segmento de alimentos e bebidas (impulsionado por açúcar e álcool) foi o destaque positivo dos indicadores da CNI em abril, os piores números ficaram para o setor de material eletrônico e comunicação. Mol disse que os empresários reclamaram muito das importações, mas é preciso admitir que as comparações com 2006 são influenciadas pelo efeito positivo da Copa do Mundo sobre as vendas no primeiro quadrimestre do ano passado.

Tomando os números dos primeiros quatro meses deste ano, o setor de alimentos e bebidas teve aumento de 5,8% nas vendas. Para material eletrônico, houve queda de 16,2%. No mesmo período, as horas trabalhadas na produção também tiveram comportamentos opostos nesses segmentos.

O setor de alimentos registrou crescimento de 14,1% e material eletrônico teve redução de 11,7%. O emprego, no quadrimestre, elevou-se 10,5% nas indústrias de alimentos e bebidas, mas nas empresas de material eletrônico caiu 4,4%. As mesmas diferenças ocorreram na remuneração dos empregados desses setores. As indústrias de alimentos mostraram subida de 18,2%, e nos eletrônicos a perda foi de 13,3%.

O uso da capacidade instalada também foi contrastante nesses setores, em abril. Nas fábricas de alimentos e bebidas, foi de 71,4% em média. Para as empresas de eletrônicos, houve mais ociosidade: 79,5%. Mol explicou que o destaque positivo do setor de alimentos e bebidas teve colaboração da área de processamento de carnes, que também impulsionou as empresas produtoras de couro.

O economista da CNI também comentou que o crescimento a "taxas chinesas" que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, costuma destacar precisa de análise mais cuidadosa. Ele ponderou que as vendas domésticas da indústria automobilística vêm sendo impulsionadas pelos prazos mais longos dos financiamentos, mas, por outro lado, o câmbio vem derrubando as exportações.

Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento, os números da balança comercial, em maio, mostraram aumento de 54,9% nas importações de automóveis de passageiros. No mesmo mês, as exportações desse item caíram 3,9%.