Título: G-4 encerra reunião em Paris sem acordo
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 15/06/2007, Brasil, p. A4

A negociação entre o Brasil, Estados Unidos, União Européia (UE) e Índia, o chamado G-4, deverá terminar hoje em Paris sem progressos nos pontos principais que bloqueiam a Rodada Doha, jogando sombras nas perspectivas de acordo preliminar nos próximos dias.

A reunião de altos funcionários dos quatro países na capital francesa começou terça-feira. O objetivo era buscar convergências sobre cortes de tarifas e subsídios agrícolas e industriais, a serem levados para os ministros do G-4 decidirem na semana que vem, em Potsdam (Alemanha), no chamado "vai ou racha" da negociação global. Ficou claro, entretanto, que os altos funcionários têm limites sobre o que negociar, o que dificultou entendimentos até mesmo sobre opções de liberalização.

Os EUA continuam recusando ceder em subsídios domésticos agrícolas, ponto considerado essencial por Brasil e India para haver avanço na negociação global. Os americanos admitiriam limitar o total de subsídios domésticos a US$ 17 bilhões, quando o montante que deram no ano passado foi de US$ 11 bilhões.

Também a UE não oferece melhora para a entrada de produtos agrícolas em seu mercado. Na verdade, Bruxelas concentra suas baterias para arrancar do Brasil e da Índia compromisso de amplos cortes de tarifas de importação de produtos industriais, mas sem sucesso.

Os europeus insistem numa fórmula com coeficiente abaixo de 20 na área industrial. Isso significaria para o Brasil derrubar a tarifa média aplicada de 11% para 8,7% (sem flexibilidade) ou 9,2% (com flexibilidade para setores sensíveis). Na semana passada, o comissário de comércio Peter Mandelson saiu aparentemente pessimista, depois de discutir o tema industrial com o ministro Celso Amorim, em Genebra.

O sentimento no G-4 é de maior cautela diante de pontos muito difíceis que vão ser empurrados para os ministros. Pode acontecer deles tampouco poderem bater o martelo e argumentarem que a barganha precisará de intervenção dos chefes de Estado e de governo.

Amorim permaneceu na capital francesa para reagir rapidamente aos pedidos de orientação da delegação brasileira. Certos analistas estimam que Brasil e Índia tiveram sua margem de manobra reduzida no G-4 com os comunicados das alianças de quase cem países em desenvolvimento, que insistiram para os dois fincarem pé na defesa de produtos industriais e no ataque aos subsídios dos ricos.

Ocorre que o comunicado do G-20 sobre agricultura foi preparado pelo Brasil, e o do G-33, pela Índia. A experiência mostra que esses textos sinalizam posições, mas na mesa de negociação fala-se outra coisa.

O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê um encontro com Amorim, hoje em Paris. Lamy advertiu que, se houver fracasso do G-4 em Potsdam, ainda haverá tentativas em Genebra.