Título: Governo avalia espaço para reduzir proteção à indústria
Autor: Leo, Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 14/06/2007, Brasil, p. A5

Convencido de que a rodada de negociação comercial da Organização Mundial do Comércio (OMC) poderá ter avanços significativos na próxima semana, o secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior, Mário Mugnaini, convocou representantes da indústria a Brasília ontem, para que se preparem para a fase decisiva da Rodada Doha. O governo quer receber os cálculos da indústria sobre as possíveis conseqüências das reduções de tarifa de importação discutidas na mesa de negociações. O Brasil quer avaliar qual o espaço real para reduzir a proteção a suas indústrias e quer argumentos para se contrapor a pressões por maior abertura.

O governo já sabe que enfrentará resistência de alguns setores, como o automobilístico, que já informou que não aceitará ser usado como "moeda de troca" no esforço brasileiro de reduzir o protecionismo agrícola dos países ricos.

Nesta semana, o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, disse, em Genebra, que, se quiser resultados "ambiciosos" em matéria de agricultura, o Brasil deve estar preparado para fazer maiores concessões na área industrial.

A discussão sobre abertura para importações de mercadorias industriais incluiu, nas últimas reuniões de negociação, temas como acordos setoriais (pelo qual seria eliminada a tarifa de importação para setores inteiros) e a importação de "remanufaturas", produtos reformados ou reciclados. A indústria brasileira mostra pouco interesse na negociação setorial, por avaliar, segundo ouviu Mugnaini, que os parceiros querem esse tipo de negociação para setores onde ela não é de interesse das empresas brasileiras, e a rejeitam em áreas onde o Brasil teria a ganhar, como a indústria de etanol.

No caso das remanufaturas, a questão começa a ganhar defensores no Brasil, entre produtores de mercadorias como máquinas usadas na construção civil. O tema tem aspectos delicados, como mostra o recente caso brasileiro na OMC contra importação de pneus remodelados da Europa, no qual o Brasil convenceu os árbitros da organização de seus motivos ambientais e de saúde pública contra esse tipo de produto importado.

A reunião convocada por Mugnaini é uma preparação para o encontro dos ministros do G-4 (Brasil, Estados Unidos, Índia e União Européia), os principais negociadores da rodada Doha, na semana que vem, na cidade alemã de Potsdam, na qual tentarão garantir um acordo viável, capaz de impedir o colapso das negociações.

Dentro de semanas, se extingue a autorização do Congresso americano à presidência dos EUA, para firmar acordos comerciais sem risco de emendas parlamentares. Até amanhã, em reuniões sigilosas em Paris, altos funcionários se dedicam a preparar a agenda e propostas a serem discutidas pelos ministros.