Título: O passado veio à tona
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Fonte: Correio Braziliense, 02/01/2011, Política, p. 2

Referências à época em que Dilma lutou contra a ditadura fizeram parte da festa feita por quem esteve, ontem, na Esplanada. O legado de Lula também foi muito lembrado A participação da presidente eleita Dilma Rousseff na luta armada ¿ tabu durante toda a campanha eleitoral ¿ ganhou destaque na cerimônia de posse. A antiga guerrilheira referiu-se ao período durante os discursos, emocionou-se ao homenagear os companheiros que ¿tombaram nesta caminhada¿ e afirmou ter entregue sua juventude ¿ao sonho de um país justo e democrático¿. O passado de Dilma tornou-se motivo de orgulho para os militantes que acompanhavam a posse na Esplanada dos Ministérios. Frases enaltecendo a luta e trechos do Hino Nacional ¿ ¿Verás que uma filha tua não foge a luta¿ ¿ estampavam camisetas com fotos daquela época de Dilma.

Mas no meio do povo, o clima era mais de despedida para Luiz Inácio Lula da Silva do que propriamente de boas-vindas para a presidente eleita. Não que a torcida fosse contrária a Dilma Rousseff. Mas é inegável que toda as atenções ¿ traduzidas nos coros gritados, nas câmeras fotográficas apontadas e nos acenos fervorosos ¿ estiveram voltadas para o agora ex-presidente da República.

¿A posse do Lula eu vi numa televisão preta e branca velha, agora já temos uma colorida grande. Essa transformação aconteceu em todo o Brasil. Até o Barack Obama disse que ele é o cara. Agora, o cara é uma mulher¿, afirma Fernando Fábio Teixeira, que durante 17 dias puxou sua carroça de Goiânia até Brasília para ver a posse presidencial. ¿Vim pelo Lula, pela Dilma e pelas latinhas que vou catar¿, afirma o catador de material reciclável de 33 anos. Fernando decorou a carroça com seis bandeirinhas e 16 faixas com fotos da nova presidente. Um broche do PT foi colocado no Beethoven, cachorro de estimação.

O casal de advogados Sérgio Dalaneze, 44 anos, e Márcia Reami, 48, veio de Rio Claro, interior de São Paulo, especialmente para a posse. Três motivos os trouxe a Brasília: gratidão, educação cívica e prestigiar uma mulher no poder. ¿Vir à posse é uma forma de dizer um `muito obrigado¿ ao Lula pela dedicação ao país¿, disse Sérgio.

Aos 74 anos, a baiana de Salvador Edith Sousa veio de ônibus para prestigiar a posse. Chamava atenção pela roupa e unhas em verde e amarelo. ¿Fiz essa fantasia especialmente para esse dia. Tenho fé de que ela vai ser boa presidente, igual ao Lula¿, compara Edith. As mulheres tinham um motivo a mais para comparecer. ¿É histórico uma mulher assumir a presidência. Temos o poder agora¿, afirma a também baiana Lucidalva Rodrigues, 52. Ela carregou o marido e os dois filhos para a Esplanada dos Ministérios. ¿Essa festa ainda não é dela, mas terá todo apoio da população. Não tenho dúvida.¿

Um grupo da Paraíba estampava nas camisetas a frase: ¿Sim, a mulher pode¿, em referência a história que Dilma Rousseff contou diversas vezes na campanha de que uma criança lhe perguntou se uma mulher poderia ser presidente da República.

Tranquilidade A posse ocorreu em clima de tranquilidade. De acordo com a Polícia Militar, nenhuma ocorrência havia sido registrada até as 21h de ontem. No momento em que Dilma recebeu a faixa presidencial do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 30 mil pessoas acompanharam a solenidade, segundo estimativa da PM. Embora ocorrências não tenham sido registradas, um policial militar relatou ao Correio que houve furtos de carteira e de uma câmera fotográfica. O professor Geison Gomes, de 31 anos, que veio de São Paulo exclusivamente para prestigiar a posse, teve a mochila furtada em uma tenda na Esplanada. (Alana Rizzo, Renata Mariz, Maria Fernanda Seixas, Márcia Neri, Silvia Pacheco, Vera Batista, Diego Abreu e Rayanne Portugal)

Vale festejar, mesmo com chuva Nàdia Medeiros Rafael Campos Jorge Roberto Freitas Especial para o Correio

A posse da presidente Dilma Rouseff estava marcada só para a tarde. Mas, ontem, às 8h, já tinha gente desembarcando no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek para presenciar o evento. Em meio a pessoas que chegavam de viagem e ainda usavam o branco do réveillon, era possível avistar turistas vestindo camisetas com a estrela do PT e com fotos da presidente.

Presente na posse do Lula em 2002, Eliana Corso, 52 anos, veio desta vez a Brasília de avião. ¿Veja como o Brasil mudou. Agora pudemos vir de avião¿ brinca a bancária de 52 anos, que deixou Aracaju às 4h40 de sexta. A animação seguiu ao longo do dia, na Esplanada, mesmo com a chuva. ¿Sou nordestina e chuva é sempre bem-vinda, indica sorte¿, diz.

Na Rodoviária, o movimento foi normal, em torno de 5,5 mil desembarques. Os que chegavam para a posse não eram muitos, mas chamavam facilmente atenção, já que a estrela do PT sempre era visível. O professor Cícero Quirimo, 40 anos, veio com elas penduradas em um cachecol. Até 2003, as visitas do morador de Dobrada (SP) a Brasília tinham tom de protesto. ¿Contra o FMI, em prol do aumento do salário¿, relata. ¿Agora, só venho para celebrar o governo dos trabalhadores, que ajudei a construir. Eu precisava estar aqui.¿

Chuvas Se não houvesse atraso do cerimonial, a chuva forte não teria apanhado a comitiva da presidente Dilma Roussef quando passava pela Esplanada. ¿Estava previsto que choveria, mas momentos antes de a comitiva passar, não chovia. A presidente Dilma chegou ao Planalto (o palácio) com chuva forte, 7 milímetros de precipitação¿, disse a meteorologista Odete Marlene Cheisa, do Instituto Nacional de Metereologia (Inmet).

As chuvas participam do cenário de eventos históricos brasileiros. Em 2003, na primeira posse de Lula, a chuva acumulou 14,5 milímetros. Havia sol, quando Fernando Henrique assumiu em 1994 e 1998. E chuva e ventos fortes ajudaram a compor o ambiente quando o general Ernesto Geisel recebeu a faixa presidencial do general Emílio Garrastazu Medici, em março de 1974.

O POVO FALA O que você espera do governo Dilma?

José Hamilton Eusébio,44 anos, técnico em telecomunicações, morador do DF ¿Quero que ela continue o trabalho que o presidente Lula fez. A educação é uma das áreas que mais precisam melhorar. Acho que precisamos de um Enem mais organizado. E a segurança também. Estão faltando policiais nas ruas, principalmente à noite. Não podemos viver com tanto medo como agora.¿

Celi Maria Marinato Lavatti, 44 anos, desempregada, veio do Espírito Santo ¿Espero que Dilma diminua as disparidades entre ricos e pobres e que haja mais igualdade social. Como mulher, quero que ela governe com muita sabedoria e dignidade. E, para todos que duvidaram da capacidade dela, espero que se arrependam. Quero ter o orgulho de dizer que ela conseguiu governar muito bem.¿

Larissa Almeida, 18 anos, estudante, moradora do DF ¿Estou feliz em participar de um momento tão histórico. Dilma é um exemplo para as jovens de onde nós, mulheres, podemos chegar. Com a nova presidente, vou até querer entrar na militância do partido. Dilma lutou desde a ditadura e continua lutando. É uma mulher que não desiste.¿