Título: Diferentes conjunturas amplificam os conflitos
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 14/01/2005, Brasil, p. A3
O conflito entre Brasil e Argentina é resultado de problemas estruturais, cujos impactos são intensificados por fatores conjunturais e há escassas perspectivas de que a situação se altere nos próximos anos. Segundo o estudo técnico elaborado pela equipe de economistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), "ocorreu nos últimos anos uma crescente divergência de desempenho e de competitividade entre os setores industriais do Brasil e da Argentina, processo que beneficiou a indústria brasileira". O resultado é um crescimento expressivo do "market share" das exportações brasileiras nas importações argentinas e a consolidação de um padrão de comércio bilateral em que a Argentina exporta commodities. Segundo estudo da CNI - que cita dados do Centro de Estudos Bonaerense (CEB), de Buenos Aires, e da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), do Rio de Janeiro - as exportações brasileiras para a Argentina aumentaram 5,7 vezes, enquanto as importações cresceram 3,7 vezes. A perda de participação da Argentina no mercado brasileiro ocorreu em paralelo a uma mudança na composição da pauta exportadora. Segundo a Funcex, no período 1997/1998, os bens de consumo responderam por mais de 40% das importações brasileiras provenientes da Argentina, os bens intermediários por 38% e os combustíveis por 12%. Nos 12 meses terminados em junho de 2004, os intermediários subiram para 58%, os combustíveis para 18% e os bens de consumo caíram para 17%. Os automóveis argentinos estão entre os produtos que mais perderam participação no Brasil no período analisado: 87,2%. Em contrapartida, a pauta de exportação brasileira para a Argentina tende a se diversificar. Segundo o CEB, químicos orgânicos, minerais metálicos e aparelhos mecânicos eram responsável por 46,4% das exportações do Brasil para a Argentina em 1989. Em 2003, a participação desses três setores caiu para 40,9%. Outro indicador para entender o conflito é a evolução das economias de Brasil e Argentina. Segundo estudo do CEB citado no levantamento da CNI, a economia brasileira era 3,4 vezes maior que a argentina em 1989. Essa diferença caiu para 2,6 vezes em 1998, auge do comércio no Mercosul, mas voltou para 3,3 vezes em 2003. A discrepância é ainda maior no setor industrial. Em 2003, o Produto Interno Bruto (PIB) industrial brasileiro era 4,9 vezes maior que o da Argentina. O Brasil também leva vantagem no fluxo de investimento direto estrangeiro. Os dois países tiveram desempenho semelhante durante a década de 90, época de privatizações em que o continente latino-americano estava atraindo investimentos. Em 1999, os recursos começaram a minguar, mas a queda foi muito mais abrupta para a Argentina do que para o Brasil. Entre 1990 e 1999, o Brasil recebeu 60% dos fluxos de investimento direto estrangeiro direcionados aos dois países. Na média de 2000 a 2003, esse percentual subiu para 85,5%, sendo que em 2003 atingiu 95,5%. O trabalho da CNI pondera que a Argentina também sofreu com a saída de investimentos estrangeiros já instalados no país por conta da crise. Isso ocorreu com maior intensidade nos setores de máquinas e equipamentos, papel, automotivo e cimento. (RL)