Título: G-8 se diz pronto a dialogar com o G-5
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 20/06/2007, Internacional, p. A12
A presidência alemã do G-8 pediu desculpas ao Brasil e aos outros membros do G-5 (China, Índia, África do Sul e México), por um incidente que causou mal-estar e desconfiança dos emergentes na reunião dos dois grupos, no início do mês na Alemanha, para discutir questões globais.
Bernd Pfaffenbach, secretário de Estado de Economia e negociador da premiê alemã, Angela Merkel, disse ainda que estão definidas as condições para o diálogo aprofundado entre G-8 e G-5 a partir do segundo semestre, utilizando um secretariado de oito pessoas na Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Ao chegar para reunião com o G-8, no dia 8 último, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os outros dirigentes do G-5 foram surpreendidos com um comunicado dos países ricos - EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Canadá e Itália, mais a Rússia - dando a entender que os emergentes tinham aprovado seu teor. A irritação foi grande, porque a redação do documento parece apoiar a posição dos EUA de colocar em pé de igualdade os emergentes e os países ricos na responsabilidade em atacar as mudanças climáticas.
Ocorre que, em comunicado separado com a presidência alemã do G-8, o Brasil e os outros emergentes tinham se declarado prontos a contribuir de maneira "proporcional" para estabilizar as emissões. Mas não aceitam metas específicas de redução de emissões que afetem seu desenvolvimento e competitividade econômica.
Entre os emergentes, o incidente foi interpretado como indicação da pouca intenção do G-8 de levar em conta a posição do G-5.
Pfaffenbach disse que escreveu a seus colegas do G-5 se desculpando pelo que chama de "erro técnico" e reafirmou o interesse alemão em implementar o "Processo de Heiligendamm", uma iniciativa que o G-8 aprovou para dar maior acesso, embora ainda limitado, aos cinco emergentes no "clube de elite" nos próximos dois anos, como reconhecimento de seu peso crescente na economia mundial.
No segundo semestre, os 13 países começarão o "diálogo estruturado" sobre clima, investimentos, proteção de propriedade intelectual, energia, padrões sociais e ambientais. Pfaffenbach disse que a OCDE servirá apenas de base logística e não terá influência política nas discussões. Foi a maneira encontrada para derrubar resistências da China e da Índia, que não queriam nem ouvir falar de OCDE, e também do Brasil.
Para a premiê Merkel, envolver mais o Brasil e os outros emergentes na "governança global" é uma resposta aos que questionam se o G-8 ainda é uma organização adaptada os tempos modernos. Pfaffenbach ressalvou que não se fala de ampliação do G-8. Inclusive porque a maioria de seus atuais membros é contra essa idéia.
Já do lado do G-5, os países vão coordenar melhor suas posições para ter "participação mais equilibrada". Mas os países ricos recusam proposta do presidente Lula, de que os dois grupos se reúnam antes de o G-8 tomar decisões na sua reunião anual do G-8, para que possam influir no texto final. Pfaffenbach estima que o G-5 pode influenciar as decisões da presidência japonesa do G-8, em 2008, por meio de contatos preliminares.
Não está claro como os japoneses agirão com os emergentes, até porque não querem dar mais espaço para a China. Provavelmente Lula terá de se conformar de novo com reunião com os ricos só no ultimo dia da cúpula do G-8.
Em um ano, o Japão fará relatório preliminar, e, em 2009, será a vez da presidência italiana avaliar a experiência com os emergentes.