Título: Seminário debate cenários para retomar investimentos
Autor: Camarotto, Murillo
Fonte: Valor Econômico, 05/12/2006, Brasil, p. A4

O corte nos gastos do governo federal e a implementação de reformas estruturais são os pontos fundamentais para a recuperação da capacidade de investimento do Brasil. Esses fatores foram citados por todos os debatedores reunidos no seminário "VII Business Round Up - Perspectivas 2007". A necessidade de criação de um cenário favorável a um crescimento mais vigoroso da economia brasileira dominou as discussões do evento, promovido pela Câmara Americana de Comércio (Amcham), em parceria com o Valor.

Para o deputado federal e ex-ministro da Fazenda Antonio Delfim Neto, é preciso corrigir a defasagem entre os investimentos públicos e privados. Atualmente, as empresas são responsáveis por um investimento de cerca de 19,5% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o governo responde por algo em torno de 0,5%. "Em uma relação de 19% (das empresas) para 3% (do governo), já se alcança um nível de produtividade muito maior", afirmou Delfim.

Para elevar a taxa de investimentos, o Executivo terá de cortar gastos, opinou o economista. "O governo sabe que não pode mais aumentar impostos. Está preso em uma armadilha e a única saída é reduzir o custeio da máquina pública", explicou. "O Estado brasileiro não cabe mais no PIB. O que cabe é cortar (os gastos) do Estado." Delfim disse ainda que vem mantendo conversas com o presidente Lula e que está confiante na disposição do governo em expandir os investimentos públicos.

A Previdência Social, que este ano deve gerar déficit de R$ 42 bilhões, foi um dos pontos mais destacados pelos debatedores. O professor de economia da Unicamp, Luciano Coutinho, acredita que uma reforma da Previdência deva ser analisada de forma mais séria, porém sem ferir os direitos adquiridos pelos aposentados e pensionistas. "Creio que possam ser criados mecanismos de transição para conter o crescimento excessivo desses gastos."

Delfim defendeu mudanças na legislação trabalhista, com os empregadores tendo maior liberdade de negociar direitos com os funcionários. Desta forma, acredita o ex-ministro, muitas pessoas ingressariam no mercado de trabalho formal, o que levaria a um crescimento na arrecadação da Previdência. "Isso poderia pelo menos deslocar para outro momento uma reforma mais profunda."

Com contas mais enxutas, o governo teria maior capacidade de investir em obras de infra-estrutura, como usinas hidrelétricas, estradas, ferrovias e portos. Dessa forma, as empresas também se sentiriam mais confiantes para investir no Brasil, criando um ciclo mais sólido de crescimento econômico. "Sempre falo para a matriz sobre o potencial de crescimento da economia brasileira", disse o presidente da General Motors do Brasil, Ray Young.

Ele disse esperar um 2007 "um pouco melhor" do que este ano, em termos de crescimento do PIB. Young elogiou a política de controle da inflação implementada pelo Banco Central e apontou a expansão do crédito como grande responsável pelo desempenho da indústria automotiva nacional em 2006. No entanto, também cobrou as reformas estruturais, para que o cenário fique mais claro e propício a novos investimentos.

O cientista político Rogério Schmitt, da consultoria Tendências, acredita que o governo não terá grandes dificuldades para aprovar as reformas. Segundo ele, a nova formação do Congresso será favorável a Lula, que terá cerca de 60% dos votos na Câmara Federal e 50%, no Senado. Além disso, ele avalia que a oposição não deverá dificultar a passagem das reformas, já que está de olho nas eleições de 2010, quando Lula não terá um sucessor natural.

No entanto, Schmitt vê com ressalvas a disposição do governo em encaminhar as reformas, pois muitas delas têm caráter bastante "impopular", como a da Previdência e a trabalhista. "Tenho dúvidas se o governo dará prioridade é o que realmente prioritário", questionou o cientista.