Título: Entre Aldo e Chinaglia, Lula optará pelo menor risco
Autor: Costa, Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 04/12/2006, Política, p. A7

Entre os deputados Aldo Rebelo (PC do B-SP) e Arlindo Chinaglia (PT-SP), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve apoiar aquele que conseguir articular com a base governista uma "candidatura sem risco" para a presidência da Câmara. Em encontro com os deputados nos próximos dias, Lula deverá informá-los de sua decisão. Aldo é candidato à reeleição, mas o PT reivindica o cargo e deve indicar o nome de Chinaglia em reunião da bancada marcada para amanhã. O PMDB, cuja bancada é majoritária, também deve anunciar a disposição de concorrer ao posto, mas sem indicar nomes.

Lula tem se manifestado, reiteradamente, favorável à reeleição de Aldo Rebelo, um aliado que julga fiel e que não tem causado problemas para o Planalto na presidência da Câmara. Ele próprio já manifestou essa posição a dirigentes petistas, posição, aliás, que tem sido reafirmada pela ministra Dilma Roussef (Casa Civil). Mas o presidente não quer se expor, ser acusado de interferir indevidamente nos assuntos internos de outro poder e, ainda por cima, perder a eleição.

O argumento do PT e de setores dos partidos aliados é que a eleição de Aldo é um risco, não por seus defeitos mas por seus méritos. O corte de 1.000 cargos na Câmara, sem o correspondente aumento do salário dos deputados, é um dos exemplos levados ao Planalto. Mas há também intriga: a reeleição de Aldo representaria também a manutenção de Renan Calheiros, presidente do Senado, e do senador José Sarney (PMDB-AP) "no cangote de Lula" - na crise para a substituição de Severino Cavalcanti, em 2005, foi o PMDB que bancou a candidatura de Aldo. O candidato do PT era Chinaglia.

Na prática, Lula deve ceder a uma imposição do PT. Na iminência de perder espaço na Esplanada dos Ministérios, o partido decidiu que era fundamental alcançar a presidência da Câmara, sobretudo num ano em que os petistas discutem a renovação de seus dirigentes. Apesar de o presidente interino da sigla, Marco Aurélio Garcia, dizer que a decisão de disputar o comando da Casa não é "irredutível", o projeto na realidade une as diversas facções do PT (Chinaglia deve ser o indicado, mas outros deputados reivindicarão o posto), do ex-ministro José Dirceu a seu desafeto político Tarso Genro, ministro das Relações Institucionais.

Segundo Tarso Genro, a reivindicação do PT precisa ser "respeitada". Para o ministro, Arlindo Chinaglia tem "o direito" de apresentar sua candidatura e fazer "movimentos de agregação". O PT, de acordo com Genro, "não faz impugnação, mas sabe que tem de negociar de uma maneira sólida". Ou seja, apresentar a candidatura de "risco zero" que é defendida por Lula. Na largada, Aldo conta com o apoio dos setores do PMDB que já apoiavam o governo no primeiro mandato, além de setores da oposição como o governador eleito José Serra (SP) e o prefeito Gilberto Kassab (PFL-SP). Chinaglia conta com pemedebistas ligados a Geddel Vieira Lima e apoios no PTB, PP, PL.

A exemplo de Aldo, Chinaglia também é motivo de intrigas entre os aliados. A principal delas, até agora, é a que atribui sua candidatura a a uma articulação do ex-ministro José Dirceu, que veria no líder um caminho mais fácil para um projeto popular de anistia que pretende propor à Câmara. Dirceu, de fato, defende um deputado petista na presidência da Câmara, mas o ex-ministro e o líder estão longe de ser aliados - Chinaglia já disputou a presidência do PT com Dirceu, que também não moveu uma palha a seu favor na sucessão de Severino Cavalcanti.

A disputa pela presidência da Câmara é intensa e ameaça a união da base que Lula tenta formar no Congresso. PMDB, PT e PTB, por exemplo, brigam pela eleição de um representante seu no Tribunal de Contas da União (TCU) - as três siglas têm os candidatos mais cotados para o cargo. Ao largo, o PFL observa as escaramuças para desembarcar do lado que possa beneficiar com alguns votos seu candidato a presidente do Senado, José Agripino Maia (PFL-RN): a maioria do governo no Senado, onde Lula também manifesta interesse em reeleger Renan Calheiros, é precária. Alguns cálculos dão conta que a oposição pode reunir até 43 em 81 votos dos senadores.

O PMDB reivindica o cargo para tentar assegurar um quinto ministério - até agora, Lula só teria se comprometido com quatro Pastas para a legenda. Mas o partido entra no jogo também pensando na alternativa de Aldo e Arlindo se anularem mutuamente. Por fora, corre Inocêncio Oliveira (PL-PE), que já presidiu a Casa e seria uma espécie de reedição de Severino Cavalcanti, que se elegeu em 2005 depois que o PT se dividiu entre duas candidaturas do partido.