Título: Era do juro alto está no fim e estrangeiro reforça bolsa
Autor: Cotias, Adriana
Fonte: Valor Econômico, 27/11/2006, EU & Investimentos, p. D2
A festa dos juros no Brasil já não é a mesma de três anos atrás e os olhos do investidor estrangeiro tendem a procurar opções no mercado de renda variável. Segundo Javier Estrada, professor de gestão financeira do IESE, a conceituada escola de negócios da Universidade de Navarra, na Espanha - eleita como o melhor MBA do mundo pela The Economist Intelligent Unit (EIU), de Londres -, contra o mercado brasileiro pesa, porém, o fato de estar muito integrado às principais bolsas mundiais, oferecendo possibilidades limitadas de diversificação no bloco dos emergentes.
Historicamente, os ativos locais têm até proporcionado retornos acima da média dos emergentes acompanhados pelo Morgan Stanley, observa Estrada. Mas no mercado de dívida, o "spread" - o prêmio de risco - dos papéis emitidos pelo governo brasileiro quase não tem mais gordura para queimar em relação aos títulos do Tesouro americano. Na bolsa, a safra de oferta de ações iniciada em 2000 - que já colocou mais de R$ 80 bilhões em circulação de lá para cá - faz parte de um ciclo de expansão já observado em mercados mais maduros como o americano e o inglês. E quanto mais se desenvolver o setor no Brasil, mais regras de governança serão impostas pelos investidores. A seguir a entrevista que Estrada concedeu ao Valor em sua passagem pelo Brasil na semana passada.
Valor: Que posição o Brasil ocupa hoje entre os emergentes no quesito atração de investimentos?
Javier Estrada: Em termos de capitalização e rentabilidade, o Brasil é um dos maiores mercados entre os emergentes. Nos últimos 20 anos, registrou retorno médio de 21%, em comparação aos 14% dos 28 mercados de economias em desenvolvimento acompanhados pelo Morgan Stanley. É ainda atrativo para investidores internacionais, nunca deixou de ser, mesmo nos momentos de maior incerteza, como foi no período recente das eleições. Com a definição do quadro político, os recursos estrangeiros voltam para o país.
Valor: Mesmo com a trajetória de queda do juro brasileiro, há oportunidades?
Estrada: Como outros grandes emergentes, o Brasil tem algumas desvantagens. Por ser um país integrado aos mercados mundiais, acaba não sendo uma excelente alternativa de diversificação para as carteiras dos investidores internacionais. Pela base do Morgan, que engloba 28 mercados em desenvolvimento, a correlação é muito alta com o mercado americano, por exemplo, em comparação ao conjunto dos demais emergentes. O mesmo ocorre com o México e o Chile. Se o investidor estrangeiro não estiver procurando crescimento e sim diversidade internacional, vai para mercados menores, como o do Paquistão ou o do Marrocos, que têm uma correlação menor com o mercado mundial e proporcionam uma diversificação melhor.
Valor: Sob o aspecto da rentabilidade, os ativos brasileiros ainda mantêm seu apelo junto aos investidores internacionais?
Estrada: O Brasil tem proporcionado, historicamente, retornos muito bons tanto em bolsa quanto no mercado de dívida. Nas duas últimas décadas, a rentabilidade anual das ações chega a 21%. E os papéis de dívida têm garantido, na média, 15% em dólares nos últimos dez anos, o que não é ruim. Mas se olhar os "spreads" entre os bônus brasileiros e os títulos do Tesouro americano, os prêmios caíram consideravelmente. Hoje, na média do JP Morgan (do índice Embi Brasil+, que contempla uma cesta de papéis brasileiros emitidos no exterior), os títulos estão apenas 2% acima dos papéis do governo americano - em 1994, era 15% e em 2002 chegou a 25% a diferença. Isso, por um lado, reflete a confiança do estrangeiro no mercado brasileiro. Mas sob outro aspecto, os retornos diminuíram também. Considerando capital e juros pagos, o retorno foi de 10% no ano passado. Era de 11% em 2004, mas já chegou ao triplo disso. Atualmente, está em 6,9%, 7%, não muito atrativo se comparado com o que se obtém hoje com o papel do governo americano.
Valor: Os spreads menores em relação aos títulos do Tesouro americano tem interferido nos fluxos para ativos brasileiros?
Estrada: Essa é uma situação que não se deu de uma hora para outra. Os prêmios vêm caindo gradualmente desde 2003. Foi uma tendência muito clara e constante e os fluxos de capitais foram se acomodando ao longo do tempo, sem grandes surpresas.
Valor: Nos últimos anos, houve muitas ofertas iniciais e secundárias de ações no mercado brasileiro. Esse é um movimento consistente?
Estrada: Como ocorreu com as empresas européias, muitos monopólios nos setores elétrico, de telefonia foram levados à bolsa. São companhias que passam a ter histórico operacional conhecido e qualquer incerteza é descontada nas ações. É sempre positivo para qualquer país passar por esse movimento, em que o mercado vê como se comportam as empresas, isso é característico dos grandes mercados, como o americano e o inglês. É um processo que representa fonte de capital importante para as empresas e mune os investidores de informações para avaliar as companhias, que passam a ter preço de mercado.
Valor: O Novo Mercado é o caminho?
Estrada: Os grandes investidores internacionais têm prestado atenção às regras de governança. O marco corporativo tornou-se uma variável importante em qualquer decisão de investimento e quanto mais se desenvolver o mercado, mais regras serão impostas.
Valor: Quais setores devem ser destaque aos olhos do investidor estrangeiro?
Estrada: Os estrangeiros, em geral, fazem a divisão dos recursos por países na mesma proporção da capitalização de cada mercado e não por setores. Para os Estados Unidos, destinam metade do dinheiro e os emergentes ficam com 6% a 7% do capital investido. Colocar um pouco mais ou menos do que isso depende da percepção sobre o potencial individual de cada mercado.
Valor: Há riscos pela frente?
Estrada: Os investidores de mercados desenvolvidos costumam ver os emergentes como se fosse uma coisa só. Mudanças institucionais repentinas acabam trazendo impacto sobre o bloco independente de onde venha o problema. No Brasil, por exemplo, as incertezas em relação às eleições deixaram de existir só a partir do momento em que Lula foi confirmado como presidente. Bom ou mau, eliminou-se a incerteza. Todos sabem qual a política de Lula e isso já está refletido nos preços das ações e dos papéis de dívida.
Valor: E o Brasil está no caminho certo para ganhar o selo de investimento não especulativo?
Estrada: O Brasil, bem como o México e a Polônia, melhorou a qualidade da sua dívida. Tem, hoje, juros e "spreads" mais baixos e o caminho é esse. Mas não se pode prever o que as agências internacionais farão, nem descartar a possibilidade de um choque que tire o país dessa tendência. As crises em mercados emergentes não se antecipam, vêm sempre como golpe, à exceção da Argentina em 2001, que todo mundo esperava a moratória. E o "investment grade" não vai representar para o Brasil redução significativa do prêmio de risco, pois o "spread" está só 2% acima dos títulos do governo americano. O que pode mudar são os fluxos, pois a melhora na classificação de risco de crédito permite que investidores institucionais estrangeiros ingressem no mercado brasileiro. O país entra no clube.