Título: Standard disputa dívida no Brasil
Autor: Bautzer, Tatiana
Fonte: Valor Econômico, 24/11/2006, Finanças, p. C3
O banco sul-africano Standard Chartered, tradicional assessor de companhias brasileiras em busca de crédito externo, está entrando no mercado local de dívida. Em quatro meses operando na área, o banco já distribuiu para investidores estrangeiros parte de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) do grupo sucroalcooleiro Dedini-Dulcini. Os estrangeiros ficaram com cerca de 25% da emissão de R$ 46 milhões.
O Standard coordenou ainda R$ 240 milhões em debêntures da Gafisa e um FIDC de crédito automotivo do BMC, de R$ 100 milhões. A instituição tirou do Unibanco para chefiar a área de renda fixa local o executivo Marcelo Fanganiello.
"Há um grande interesse dos estrangeiros em renda fixa em reais porque o juro continua alto e o câmbio está relativamente estável", diz Fanganiello. Os FIDC são preferidos por estrangeiros porque recebem rating de agências internacionais.
A instituição sul-africana considera três alternativas para vender os papéis brasileiros a estrangeiros com isenção de Imposto de Renda (IR), evitando bitributação no país de origem.
A primeira alternativa é semelhante à usada pelo JP Morgan numa venda recente de FIDC no exterior: a compra de papéis pela tesouraria do banco, com emissão no exterior de "credit linked notes". A segunda é a compra de créditos fiscais usados para compensação. A terceira, que daria ao Standard uma alavancagem inédita para venda de ativos brasileiros no exterior, seria usar o acordo de tributação que existe entre o Brasil e a África do Sul para que os papéis brasileiros sejam alocados na tesouraria da matriz em Johannesburgo. "Teríamos à disposição um balanço enorme, o Standard na África do Sul tem ativos totais de US$ 190 bilhões", explica o diretor.
Além das emissões para empresas, o Standard montou um FIDC "proprietário", ou seja, cujo investidor é a tesouraria do banco, que deve chegar a R$ 100 milhões até o fim do ano. O banco tem comprado ativos de crédito que incluem desde carteiras de consignado a aposentados e financiamentos de veículos a duplicatas comerciais. Com o fundo, o Standard quer criar relacionamentos com empresas para concessão de empréstimos-ponte que resultem em ativos de crédito no futuro.
Estabelecido como banco de investimentos no Brasil desde 2004, o Standard está trabalhando para aumentar a carteira de clientes corporativos dos atuais 60 para 150. O presidente do banco, Fábio Solferini, diz que a instituição tem dois novos nichos em vista no país: a securitização de ativos imobiliários e investimentos de fundos de "private equity" que o banco administra no exterior. Depois de abrir o banco de investimento no Brasil, que segue a tradição de atividade de atacado, a instituição fez sua única incursão no varejo bancário no exterior- comprou em dezembro do ano passado o BankBoston na Argentina.