Título: Lula formaliza convite ao PMDB e Temer promete 'amplíssima maioria'
Autor: Lyra, Paulo de Tarso e Ulhôa, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 23/11/2006, Política, p. A6

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva formalizou ontem, em reunião no Palácio do Planalto, o convite para que o PMDB integre a coalizão de governo em torno de uma agenda programática de sete pontos. "(O presidente pediu que o partido) seja responsável por algumas políticas públicas de governo", mas sem especificar as áreas que a legenda poderá atuar, disse o presidente da sigla, Michel Temer, depois da audiência. O presidente ouviu de volta que o PMDB está disposto, "por uma amplíssima maioria", a fazer parte da coalizão governista.

O governo apresentou sete pontos de uma agenda mínima de coalizão para seduzir o PMDB e os demais partidos da aliança governista: reforma política; reforma tributária; política econômica, monetária e fiscal comprometida com um crescimento de 5%; evolução das despesas correntes inferior ao crescimento do PIB; consolidação das políticas públicas de transferência de renda; fortalecimento da Federação (incluindo a discussão, caso a caso, das dificuldades fiscais dos Estados); e criação de um Conselho Político com os partidos da coalizão para acompanhar as ações do governo.

"Isto é ímpar, é inédito. Eu, pelo menos, não me recordo de uma conjugação de forças políticas no passado que se ancorasse em uma proposta de projetos para isso. Acho que isso foi o primeiro instante em que isso aconteceu. Isso facilita muito a presença do PMDB", elogiou Temer. O presidente do PMDB foi ao encontro junto com outros quatro integrantes da Executiva do partido.

"Disse ao presidente Lula que já fizemos uma pré-consulta no partido e por significativa e expressiva maioria o PMDB está disposto a fazer esta coalizão de natureza política. Ou seja, ser co-responsável por políticas públicas para o país", adiantou Temer.

Depois da conversa com Lula, o ex-governador Orestes Quércia começou a articular a aproximação dos governistas do PMDB com a ala chamada "independente", principalmente o presidente do partido. O apelo por união foi levado pelo ex-governador no início da tarde ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e com os senadores José Sarney (PMDB-AP) e Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Senado.

"Minha proposta é fazer uma aliança com todo mundo", afirmou Quércia. Ele disse que o partido precisa se unir para negociar a eleição da nova direção, marcada para março, quando será realizada a convenção nacional. Marcaram almoço entre Temer, Renan, Sarney e o próprio Quércia na terça-feira.

"Não vai haver unanimidade, mas o PMDB vai surpreender muita gente se, de tudo isso, sair um consenso das diferentes correntes", disse Renan. Ele recebeu telefonema de Lula, que relatou a conversa com os integrantes da Executiva Nacional do partido.

Segundo Renan, o presidente deixou claro que vai aguardar a eleição dos líderes e dos novos presidentes dos partidos para montar a nova equipe só depois: "Ele (Lula) disse que vai sustentar (sem mudar a equipe) o máximo que puder".

Na conversa com Temer e membros da executiva, Lula afirmou ter errado no seu primeiro mandato por ter feito acordo com parte do partido. Agora, quer uma relação institucional. Não falaram em cargos, negociação que ficará para uma segunda etapa.

Temer relatou a Lula a formação de um grupo de senadores do PMDB que se declarou independente em relação ao governo, liderado pelos ex-governadores Jarbas Vasconcelos (PE) e Joaquim Roriz (DF). Lula disse que tem bom relacionamento com Roriz e pretende chamá-lo para uma conversa. Quanto a Jarbas, o presidente pediu que Temer transmitisse ao ex-governador que "tem o maior apreço por ele". O presidente do PMDB telefonou para Jarbas depois da conversa com Lula. Jarbas disse que não terá problemas em se reunir com o presidente para discutir as reformas necessárias ao país, mas "sem alinhamento automático".

Segundo Quércia, mais de 90% do PMDB apóiam a decisão de participar de um governo de coalizão. "Política é o que é possível. O presidente sabe que não terá todo mundo, mas espera que tenha maioria razoável", afirmou Quércia.

Na avaliação do deputado Moreira Franco (RJ), que também participou da reunião no Planalto, o encontro com Lula foi "inovador, por ter sido a primeira vez que um presidente da República apresenta propostas de políticas públicas e procura manter uma relação institucional com partidos aliados, com base nesses compromissos". Disse esperar que o PMDB esteja "à altura para esse novo método".

O ministro Tarso Genro, que participou da reunião, leu a relação de propostas apresentadas aos pemedebistas, para as quais o presidente quer compromisso do partido. Lula comentava cada uma.

A impressão deixada pelo presidente era de estar fixado na idéia de "destravar" os gargalos de infra-estrutura. Reclamou especialmente das dificuldades colocadas pela área ambiental à realização de obras que impulsionem o desenvolvimento. Embora Temer tenha marcado uma reunião da Executiva Nacional do partido para terça-feira e outra do Conselho Político para quinta-feira, com o objetivo de formalizar o acordo com o governo, o grupo, ontem, deixou clara a aceitação da proposta, já que isso reflete o pensamento da maioria da legenda.

Sobre a agenda de Lula, Jarbas admitiu conversar com ele sobre as reformas política, da Previdência e tributária. "Acredito que o diálogo é fundamental para que esses assuntos saiam do âmbito das promessas para o das ações. O país precisa crescer, resolver os gargalos da nossa infra-estrutura. Foi essa postura que, como governador, adotei durante o primeiro mandato do presidente Lula, de conversar, mas me mantendo no campo da oposição", disse. Segundo ele, a bancada do PMDB no Senado "tem condições de trabalhar para aperfeiçoar as propostas que venham ser enviadas pelo governo, mas sem alinhamento automático."

À noite, Lula disse que "a reunião com o PMDB foi histórica, porque todo mundo sabe que temos de fazer uma política de alianças mais forte com o partido". "Fiquei muito contente, porque o presidente Michel Temer disse que vai levar a proposta para a executiva do partido e que há uma disposição de integrar o governo".