Título: Banco Mundial estuda novo pacote de US$ 2 bi ao Brasil
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 19/01/2005, Finanças, p. C8

O Banco Mundial (Bird) negocia um pacote de US$ 2 bilhões em novos empréstimos com o governo brasileiro, para diminuir o impacto dos grandes pagamentos a serem feitos por créditos de curto prazo concedidos pela instituição ao Brasil durante a crise do Plano Real, em 1998. Nos últimos dois anos, o país pagou mais ao banco do que recebeu: em 2003 e 2004, os pagamentos somaram cerca de US$ 1,6 bilhão anuais e, neste ano, devem ficar em torno de US$ 1 bilhão. Em 2003, o Brasil pagou US$ 342 milhões a mais do que recebeu em desembolsos; em 2004 foram US$ 116 milhões. Para evitar a repetição desse déficit, o Banco Mundial espera conseguir desembolsar pelo menos US$ 1,5 bilhão ao país neste ano. "Esse é um tópico que nos preocupa também", confirmou a vice-presidente do Bird para América Latina e Caribe, Pamela Cox, que discutiu o assunto ontem com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Empossada em 1º de janeiro, Cox está em visita ao Brasil e teve reuniões com ministros do governo Luiz Inácio Lula da Silva na terça-feira durante todo o dia. "Existe um salto nos pagamentos neste ano por causa dos empréstimos especiais no período de crise", lembrou ela, ao afirmar que o banco tem interesse em montar um programa de US$ 2 bilhões em empréstimos, por estar "absolutamente comprometido com o Brasil". Ela informou que discutiu com a equipe de Palocci formas de aproveitar os diversos instrumentos financeiros do banco para garantir desembolsos rápidos, com o mínimo de exigência de novas contrapartidas orçamentárias. Um desses instrumentos é o que o banco chama de "swaps", que nada têm a ver com as operações desse nome conhecidas pelo mercado financeiro: são empréstimos que, diferentemente da forma habitual de atuação do Banco Mundial, não exigem a criação de novos programas e de novas verbas orçamentárias como contrapartida. O banco já aprovou um empréstimo de US$ 507 milhões no modelo de "swap" para apoiar o programa Bolsa Família, e estuda outro, similar, para os programas de infra-estrutura do governo. "Enfatizamos o empenho pela responsabilidade fiscal e queremos garantir que possamos encontrar meios para ajudar o governo a continuar a fazer o que já faz com grande responsabilidade fiscal", disse a nova vice-presidente do Bird, ao explicar o interesse da instituição em empréstimos sem exigência de novas contrapartidas no orçamento brasileiro. "Esperamos que (o programa de empréstimos em negociação) possa responder aos fluxos negativos que existem atualmente", comentou Pamela Cox, após fazer enfáticos elogios à política macroeconômica do governo Lula. "Estamos entusiasmados com o Brasil e estamos tratando desse salto (nos pagamentos de empréstimos." "O Brasil está no caminho certo", disse Cox. Ela minimizou as críticas de desempenho e de desvios de recursos do Bolsa Família, argumentando que até nos Estados Unidos há problemas com beneficiários dos programas sociais. "Programas sociais geralmente são mais difíceis de implementar que política macroeconômicas, técnicamente mais fáceis de se acompanhar", comentou. Pamela Cox afirmou que não vê riscos de reflexos no Brasil de um possível fracasso na renegociação da dívida externa da Argentina e informou que o banco está muito interessado em financiar programas na área de água e saneamento, pelos reflexos positivos que esse tipo de investimento traz em matéria de saúde e redução da mortalidade infantil - dois temas importantes tratados pelas chamadas Metas do Milênio contra a pobreza, da Organização das Nações Unidas. Outra prioridade do banco - objeto de um empréstimo já em execução, de US$ 500 milhões - é, segundo o diretor do banco no Brasil, Vinod Thomas, a política de meio ambiente, para redução do desflorestamento provocado, segundo estudos da instituição, pelo plantio de soja e pela pecuária. Nos anos de 2003 e 2004 houve o desmatamento mais acelerado da história do Brasil, afirmou o diretor do Banco Mundial.