Título: Lula quer conselho de ex-presidentes
Autor: Costa, Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 20/11/2006, Política, p. A6

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende constituir um conselho de ex-presidentes da República, do qual faria parte inclusive o senador eleito Fernando Collor de Mello (PRTB-AL), seu adversário na eleição de 1989 e que sofreu impeachment em 1992. "Além de ex-presidente, ele foi legitimado por Alagoas e absolvido pela Justiça", justificou Lula a um grupo de congressistas que o acompanhou na viagem de Campo Grande (MS) a Brasília, onde todos foram para o enterro do senador Ramez Tebet (PMDB), morto no sábado.

Lula disse que vai apresentar "um leque de opções" para o "destravamento do país", expressão a que recorreu por mais de uma vez, segundo os parlamentares que o acompanhava, entre os quais o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM). O presidente do Senado, Renan Calheiros, e o ex-presidente José Sarney também estavam presentes. É a partir desse "leque de opções" que Lula pretende conversar com os partidos políticos, a oposição e os ex-presidentes.

O presidente queixou-se muito de decisões do Ministério Público na área do meio ambiente que impediriam a execução de obras de infra-estrutura indispensáveis para o crescimento. Citou que a Petrobras tem sido muito prejudicada pelo problema. E voltou a dizer que vai perseguir um crescimento de 5% ao ano em seu segundo mandato.

"O pessoal que se elegeu dez anos atrás no Rio Grande do Sul e não tinha dinheiro para investir. Agora, dez anos depois, a Yeda (Crusius) sem um tostão para investir. (Mantida a situação) daqui a dez anos será a mesma coisa", disse Lula, segundo a reprodução feita por um dos senadores.

Desde sexta-feira, em conversa com senadores do PMDB, Lula manifestara a intenção de conversar com a oposição. Na ocasião, falou no nome do senador Tasso Jereissati (CE), presidente nacional do PSDB, um de seus mais ácidos críticos. Só não havia ainda feito um convite receoso de uma recusa, como anteriormente fizera o PFL.

Na conversa com Virgílio, o presidente manifestou especial interesse em conversar com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, com quem também teve rusgas na campanha eleitoral. Lula falou então na constituição do conselho de ex-presidentes para o aconselhar. Disse que chamaria todos os ex-presidentes. FHC, com quem teve problemas recentes, mas de quem gostava muito, Itamar Franco, "idem", José Sarney, "que já é aliado" e Fernando Collor. "Além de ex-presidente, ele foi legitimado por Alagoas (ao se eleger senador nas últimas eleições) e absolvido pela Justiça".

"Estou falando sério, vou chamar para conversar", disse o presidente a Arthur Virgílio. O líder do PSDB disse que a oposição estava aberta à discussão em torno de uma agenda de desenvolvimento para o país. "O que nós queremos é poder interagir", respondeu Virgílio, segundo seu próprio relato. Na conversa que teve na sexta-feira com os senadores do PMDB, Lula chegou a insinuar que poderia até indicar um representante da oposição para o novo ministério.

Na conversa entre Campo Grande e Brasília, o presidente voltou a dizer, como fizera com os pemedebistas, que não tem pressa na montagem do novo ministério e que pode assumir, em 1º de janeiro, com integrantes da atual equipe de governo.

A primeira conversa com a oposição, com o testemunho do PMDB, ocorreu por acaso. Na ida a Campo Grande, Lula e os parlamentares viajaram em aviões separados. Na ida para o aeroporto, Virgílio e Renan ficaram para trás. O líder do PSDB chegou primeiro e começou a conversar com Lula, a quem cumprimentara na partida. "Está muito calor aqui. Vamos esperar (o Renan) no avião", teria dito Lula. Depois, o presidente convidou todos a voltarem com ele no avião presidencial (por causa do horário, o avião auxiliar teria de fazer uma escala extra).

Os congressistas a bordo ficaram com a impressão que o entusiasmo de Lula pelo crescimento de 5% ao ano é desproporcional em relação ao interesse que o presidente demonstra na reforma da Previdência Social. Ele não teria demonstrado "disposição" de fazer uma reforma da Previdência "para valer", segundo um dos presentes.