Título: Captações externas de US$ 6 bi em novembro
Autor: Lucchesi, Cristiane Perini
Fonte: Valor Econômico, 17/11/2006, Finanças, p. C1
A Companhia Vale do Rio Doce conseguiu demanda superior a US$ 13 bilhões para seus papéis de vencimento em 10 e 30 anos. O valor inicialmente lançado, de US$ 2,5 bilhões, foi elevado para US$ 3,75 bilhões, na maior captação externa por meio de um eurobônus de uma empresa da história da América Latina. A Vale pode aproveitar a oferta de dinheiro do mercado externo e emitir bônus perpétuos, sem vencimento final. O mês de novembro ainda nem terminou e já foram obtidos nada menos do que US$ 6 bilhões no mercado internacional por bancos, empresas e governo federal do Brasil.
"A operação da Vale foi, sem dúvida, acima das expectativas, e muito da demanda pelo papel da empresa veio de investidores que só compram crédito 'investment grade", disse Alexandre Bettamio, responsável pelo banco de investimento do UBS, um dos bancos que liderou a operação. O "investment grade" ou "grau de investimento" é uma espécie de selo de investimento não-especulativo e amplia a base dos investidores de uma empresa - mesmo os mais conservadores passam a ter interesse no papel.
Os recursos obtidos pela Vale serão usados para pagar empréstimo de US$ 17,6 bilhões, dos quais US$ 13,7 bilhões já foram tomados, para a compra da canadense Inco. O empréstimo-ponte tem prazo curto -vencimento em dois anos- e juros que sobem no segundo ano, para Libor, a taxa interbancária de Londres, mais 0,60% ao ano, com relação ao 0,40% ao ano no primeiro ano. A empresa tem interesse em rolar todos os US$ 17,6 bilhões antes do final do vencimento do primeiro ano, em outubro do ano que vem.
Além dos US$ 3,75 bilhões emitidos ontem, a empresa está com operação de captação no mercado interno por meio de debêntures, de R$ 5 bilhões (cerca de US$ 2,33 bilhões). A Vale avalia ainda criar uma nova subsidiária, com ações em bolsa no exterior, para reunir todos os seus ativos de metais não-ferrosos e a recém-adquirida produtora de níquel Inco. Levantaria de US$ 5 bilhões a US$ 7 bilhões com a emissão de ações da nova empresa. Mas esse plano tem encontrado resistência de acionistas. Os bônus perpétuos seriam uma terceira alternativa para rolar os US$ 17,6 bilhões, tomados sob a liderança do UBS, Credit Suisse, Santander e ABN AMRO.
Esses quatro bancos também lideraram a emissão de papéis da empresa que fechou ontem. Os títulos da Vale de vencimento em 30 anos totalizaram US$ 2,5 bilhões, com cupom (juro nominal) de 6,875% ao ano. O preço foi de 99,478% do valor de face, o que corresponde a um rendimento de 6,997% ao ano, com prêmio de 225 pontos básicos sobre os títulos do Tesouro dos Estados Unidos. Já os papéis de vencimento em dez anos totalizaram US$ 1,25 bilhão, com cupom (juro nominal) de 6,25% ao ano. O preço foi de 99,267% do valor de face, o que corresponde a um rendimento de 6,346% ao ano, com prêmio de 168 pontos básicos sobre os títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
Hoje, está previsto o fechamento da primeira operação de eurobônus perpétuo brasileiro desde abril, quando uma forte instabilidade se instaurou nos mercados externos e acabou com essa alternativa às empresas brasileiras. A Net Serviços de Comunicação deverá emitir US$ 150 milhões em perpétuos, com opção de resgate antecipado pelo emissor a partir do terceiro ano de vida do título. A demanda já passou US$ 250 milhões, segundo o "IFR Markets", e as taxas de juros devem ficam em cerca de 9,375% ao ano. O líder da operação é o Deutsche Bank.
"O mercado de bônus perpétuos está oficialmente aberto ao Brasil novamente e mais operações estão por vir", afirma Bettamio, que está prevendo um "dezembro aquecido", tanto no mercado de renda fixa quanto no mercado de ações. Segundo ele, não há tensões no mercado internacional no curto prazo, ainda mais considerando-se a queda nos preços do petróleo. "O Brasil tem hoje fundamentos sólidos, juros básicos em queda e inflação sob controle", continua. Além disso, nota ele, os rendimentos pagos por empresas e bancos brasileiros ainda são atraentes e tendem a cair se o país se tornar mesmo grau de investimento, como prevêem os investidores internacionais.
Segundo o "IFR Markets", também pode fechar hoje ou na segunda-feira a captação de US$ 50 milhões do Banco Cruzeiro do Sul, de dívida subordinada, que pode chegar a US$ 50 milhões.