Título: Telemar prepara 'festa' de acionistas
Autor: Magalhães, Heloisa e Moreira, Talita
Fonte: Valor Econômico, 10/11/2006, Empresas, p. B3

A programação cultural da casa de shows Scala informa: sábado, domingo e segunda tem festa da Telemar. "É o primeiro evento do mês. O movimento está fraco", diz o atendente, por telefone.

Mas não se trata de um espetáculo qualquer. No próximo dia 13, a operadora deve realizar no local uma assembléia na qual seus acionistas vão discutir o plano de reestruturação societária apresentado pela empresa. E não há garantia de diversão para todos. Dependendo do resultado da votação, os opositores ou os defensores da proposta sairão descontentes.

A expectativa é de que esse seja o maior encontro de acionistas de uma companhia já realizado no país. A Telemar tem 1,2 milhão de detentores de ações preferenciais, os únicos que poderão votar.

Por lei, as assembléias devem ser realizadas na sede da companhia. Mas, diante de uma expectativa tão grande de público, a Telemar alugou a casa de shows, que fica a cem metros da empresa, caso precise se transferir para um local maior. No auditório da operadora cabem 60 pessoas, enquanto o Scala comporta 1,5 mil. Só da empresa há 80 pessoas envolvidas, entre advogados e responsáveis pela infra-estrutura. Isso sem contar as modelos que estão sendo treinadas para receber os acionistas e distribuir as cédulas de votação.

Para organizar um evento desse porte e também mostrar à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que sua sede não tem capacidade para abrigar tanta gente, a Telemar chamou o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil, que avaliaram as condições do auditório. Foi contratado um serviço de transporte para levar os acionistas de um local ao outro, caso não queiram percorrer cem metros a pé. Haverá uma ambulância na porta do Scala e, lá dentro, café e água serão servidos.

Até agora 250 acionistas confirmaram a presença, mas é bastante provável que mais pessoas compareçam no dia. Normalmente, a audiência de uma assembléia da Telemar não reúne muito mais de 25 pessoas.

Talvez todos esses preparativos sejam em vão. Existe a expectativa de que não haja quórum suficiente nesta primeira convocação. (ver texto abaixo)

De qualquer forma, a reunião de acionistas da Telemar será histórica. "Em geral, as assembléias no Brasil não costumam reunir mais do que três minoritários", afirma Rafael Sales, responsável pela área de governança corporativa da Fama Investimentos e habitué de assembléias das companhias nas quais tem participação.

O baixo quórum se justifica pela estrutura acionária que vigora no país, onde os papéis ordinários têm direito a voto e os preferenciais têm prioridade no recebimento de dividendos. A ONs ficam concentradas nas mãos de um investidor ou de um pequeno grupo deles. Assim, tanto faz para um minoritário comparecer ou não às assembléias.

Mas um parecer divulgado em agosto pela CVM subverteu essa lógica ao esclarecer que, em casos envolvendo preços diferentes na relação de troca das ações, os ordinaristas não podem votar. Esse é o caso da Telemar. Como suas ações PN estão mais pulverizadas, a operadora terá de reunir mais pessoas.

Entretanto, daqui para a frente, a tendência é de que as assembléias tornem-se mais populares. Companhias do Novo Mercado - nível máximo de governança corporativa da Bovespa - só têm ações ordinárias. Em algumas delas nem há mais a figura de um controlador. É o caso de Lojas Renner, cujo capital é pulverizado.

"Com as aberturas de capital recentes, a gente está deixando de ter assembléias só para o cumprimento de questões legais. Mesmo sem a pulverização de capital, a exigência de transparência passou a ser um pré-requisito", diz Paulo Vasconcelos, sócio da consultoria ProxyCon e conselheiro de algumas companhias abertas.

A realidade brasileira ainda está bem distante do que ocorre nos Estados Unidos, onde as assembléias reúnem milhares de pessoas. Por aqui, a Renner, por exemplo, não conseguiu alcançar o quórum suficiente em sua primeira tentativa.

A Telemar também está suando a camisa para atrair seus acionistas. A companhia enviou cartas para mais de um milhão deles informando-os sobre a assembléia e o processo de pulverização. Por meio de um 0800, os investidores também podem tirar suas dúvidas com dez atendentes. No site criado especificamente com essa finalidade, o presidente Luiz Eduardo Falco explica em vídeos os diversos pontos da operação.

Nada comparável, porém, às assembléias americanas. Lá, elas são literalmente uma festa. Neste ano, os cerca de 20 mil acionistas do Wal-Mart reunidos num estádio em Bentonville, Arkansas, encerraram o evento embalados por um show da superestrela Beyoncée.