Título: PMDB busca unificação antes de negociar cota
Autor: Ulhôa, Raquel
Fonte: Valor Econômico, 08/11/2006, Política, p. A9

O presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP), afirmou ontem que somente o conselho político do partido pode dar formalidade a uma decisão sobre a unidade do partido e sua participação em um governo de coalizão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A instância, formada pelas principais lideranças do partido, como ex-presidentes nacionais, presidentes dos diretórios estaduais e governadores, poderia se reunir até o fim de novembro, segundo Temer, dependendo de uma proposta formal de Lula.

"Quando se pensa em unidade, o PMDB precisa se reunir integralmente. Todos os setores do partido têm que ser ouvidos e a decisão tem que ser majoritária", disse Temer. Segundo ele, se o governo conversar "com alguns poucos" e a decisão de apoiar o governo for tomada por setores do partido, informalmente, o governo não terá a garantia do partido unido, fundamental à governabilidade no segundo mandato.

O deputado admitiu que, entre os seis governadores eleitos pela legenda, a maioria defende apoiar o governo: "Realmente, em função dos governadores, eu quero dizer que sim. Agora, se essa governabilidade acontecerá mediante a ocupação de cargos ou não, é outro problema. O que todos me dizem, e eu reitero, é que o partido deve participar das chamadas políticas públicas".

Na aproximação com o PMDB, Lula busca diversificar seus interlocutores. O presidente pediu ontem a colaboração do senador José Maranhão (PMDB-PB). " O presidente está certo. Ele está numa posição ética: quer evitar uma interlocução com o PMDB que possa fragmentar o partido " , disse Maranhão.

Lula disse ao senador que quer uma " aliança definitiva " com o PMDB que, por ter maior bancada no Congresso, pode lhe garantir a governabilidade necessária na segunda gestão. O presidente quer evitar os erros cometidos nos primeiros quatro anos, quando teve que fazer negociações fragmentadas para garantir apoio no Congresso. " O presidente quer respeitar a autonomia do partido e não negociar de forma isolada, buscando cooptar lideranças que não representem a unidade do partido " , afirmou o pemedebista.

O presidente não discutiu cargos, mas deixou claro que quer o PMDB " participando do núcleo das decisões " . Segundo o senador, Lula disse, ainda, que quer ministros competentes, porque não quer mais errar. Para Maranhão, as conversas sobre cargos só devem ocorrer depois que o partido consolidar sua unidade.

Isso está de fato sendo perseguido pelos governistas - representados principalmente pelos senadores Renan Calheiros (AL) e José Sarney (AP) e pelos deputados Jader Barbalho (PA) e Eunício Oliveira (CE) -, oposicionistas - entre os quais Temer está incluído - e os que aderiram recentemente por questões locais, como o deputado Geddel Vieira Lima (BA).

Em busca de consenso, governistas do PMDB esperam um gesto de Temer no sentido de antecipar sua saída da presidência do partido. O mandato termina em março de 2007. Para deixar o cargo, Temer - que apoiou o tucano Geraldo Alckmin a presidente - seria contemplado com a presidência de uma comissão importante na Câmara ou até com uma indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) ou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Segundo pemedebistas envolvidos nas conversas, a decisão do partido depende de uma sinalização de Lula sobre o espaço que a legenda terá no governo. Num governo de coalizão, o PMDB quer ser responsável por setores da gestão e não simplesmente ocupar espaço físico.

O partido sonha em ocupar ministérios que tenham capilaridade com Estados e municípios, como Integração Nacional, Transportes, Cidades, Minas e Energia e Saúde. Mas, caso Lula queira nomear o ex-presidente do STF, Nelson Jobim, para o Ministério da Justiça, por exemplo, na cota do partido, os pemedebistas não teriam como negar.

A bancada da Câmara não quer abrir mão da presidência da Casa, já que elegeu o maior número de deputados. Os principais nomes são os de Eunício de Oliveira e Geddel. (Com agências noticiosas)