Título: Lula manifesta apoio irrestrito à ação policial de Cabral em favela
Autor: Santos, Chico
Fonte: Valor Econômico, 03/07/2007, Política, p. A7
Após dois eventos controvertidos, em São Paulo, quando Estado e União não chegaram a um acordo sobre os números, e em Minas Gerais, onde a platéia aplaudiu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e vaiou o governador Aécio Neves (PSDB), Lula viveu ontem ontem um clima de lua-de-mel com o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) no anúncio das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para saneamento e urbanização de favelas no Estado do Rio de Janeiro. A ponto de Lula, arriscando-se a atrair a ira das entidades de direitos humanos preocupadas com possíveis excessos, manifestar apoio irrestrito às ações militares de Cabral no complexo de favelas do Alemão que já resultaram em mais de 40 mortes desde o início de maio.
"Tem gente que acha que é possível enfrentar a bandidagem com pétalas de rosas, jogando pétalas de rosas, jogando pó-de-arroz... A gente tem que enfrentá-los sabendo que eles estão, muitas vezes, mais preparados do que a polícia", disse Lula, acrescentando que a maioria da população das favelas é gente honesta que "não pode ficar refém de uma minoria". Lula encerrou seu discurso dizendo que Cabral, no combate aos bandidos, pode contar com mais do que a solidariedade do governo federal. "Precise o que precisar, nós estamos dispostos a contribuir para que o Rio volte a ser aquele Rio que todos nós aprendemos a conhecer".
A cerimônia de assinatura dos convênios entre o governo federal, o Estado e 15 municípios fluminenses, sendo 13 da região metropolitana da capital, realizada no palco da casa de espetáculos Canecão (Botafogo, zona sul), contou com uma grande claque e com rasgada troca de elogios. "O presidente Lula tem sido um grande amigo desse Estado. Tem dado uma prioridade que nunca se viu na história do Rio de Janeiro", disse o governador Cabral no seu discurso.
Lula não ficou atrás. Disse que o Rio "está vivendo um momento excepcional" e acrescentou que no passado havia "uma disputa mesquinha" entre o Estado e o governo federal que dificultava as ações conjuntas. Ele prometeu despoluir a baía de Guanabara, acrescentando que as obras de saneamento que estavam sendo anunciadas na Baixada Fluminense já eram parte desse processo de limpeza. Lula cobrou firmeza de propósito a prefeitos e ao Estado para que as obras saiam do papel e disse que "há sempre alguém para colocar uma pedra no sapato". O prefeito do Rio, César Maia (DEM) não compareceu ao evento, sendo representado por seu secretário de Habitação, Luiz Humberto Barros.
As obras anunciadas ontem, que já eram de conhecimento público, vão somar, segundo balanço feito pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, R$ 3,880 bilhões, dos quais R$ 3,237 bilhões serão investimentos do governo federal. A contrapartida do Estado vai somar R$ 404,9 milhões e a dos 15 municípios, R$ 238,3 milhões.
Entre as principais obras previstas pelo PAC para o Rio estão as de saneamento e urbanização das favelas da Rocinha (zona sul), complexo Pavão-Pavãozinho e Cantagalo (zona sul), Manguinhos (zona norte) e complexo do Alemão (zona norte), todas na capital. A ministra Dilma Roussef disse que as obras totais irão beneficiar dois milhões de famílias. Segundo ela, as obras contratadas que mostrarem descompasso com os cronogramas poderão ser canceladas e substituídas por outras do banco de projetos de posse do governo federal.