Título: Por placar apertado, Copom deve manter ritmo de redução da Selic
Autor: Guimarães, Luiz Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 13/07/2007, Finanças, p. C2
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deverá manter o ritmo de queda da Selic em 0,50 ponto em sua reunião marcada para quarta-feira. Mas, de novo, a decisão não será unânime. A expectativa é de o placar ser mais apertado do que o 5 a 2 da reunião anterior, de 6 de junho, que decidiu acelerar a velocidade de queda do juro básico após três decisões de baixa de 0,25 ponto. A maior parte dos analistas consultados ontem pelo Valor acredita que o escore deverá ser de 4 a 3 em favor da redução da Selic de 12% para 11,5%. Será uma forma de o Copom sinalizar que, no encontro de setembro, existirá a concreta possibilidade de o BC voltar a frear o declínio. Este risco, para a reunião da semana que vem, só existe para dois dos 17 analistas ouvidos.
Paulo Gurgel Valente, economista da Profit Consultoria, alinha alguns fatores que podem levar o Copom a endurecer a política monetária e reduzir a taxa de 12% para 11,75%. São eles: as indefinições sobre metas de inflação entre os "desenvolvimentistas" do Ministério da Fazenda e o BC; a manutenção do juro básico americano e a subida das taxas em euro e libra, refletindo um temor global de retorno da inflação; pequena reaceleração da inflação local; a queda já acumulada pela Selic, "embora a meu ver não o suficiente". O diretor da Global Financial Advisor, Miguel Daoud, diz que os sinais de pressão sobre a inflação corrente e a futura devem levar o Copom a agir mais conservadoramente já neste mês, sem esperar por setembro. "A inflação voltou a preocupar o mundo todo. O BC talvez não se sinta confortável em continuar reduzindo o juro com a intensidade anterior", embora reconheça que a manutenção da meta de inflação em 4,5% alargou o espaço para maiores flexibilizações monetárias.
O economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, considera "inadmissível" que o Copom use a trapalhada feita no anúncio da meta de inflação para 4,5% como pretexto para reduzir o ritmo de queda do juro básico. "Todos os fatores condicionantes, como o mercado externo e a atividade interna, como os determinantes, como a inflação presente e a esperada, conduzem à manutenção do ritmo por pelo menos mais duas reuniões", diz Agostini. O economista-chefe da UP Trend, Jason Vieira, considera que a "nova diretoria do BC, mais pró-flexibilização", irá relevar a influência do minichoque dos alimentos. "O mais importante é que a temida inflação de demanda não apareceu", diz.
Sergio Vale, economista da MB Associados, acha que esta reunião do Copom deve ser relativamente mais tensa do que as últimas. "A grande questão agora é saber como o BC poderá reagir à decisão do CMN de manter a meta em 4,5%. Para essa reunião ainda se garante um 0,50 ponto de queda, até porque mudar nesse momento poderia passar uma impressão pior ainda, ou seja, depois de perder a briga pela meta, reverter a decisão anterior, num momento em que 2009 ainda não está no alcance da mira do BC, daria a impressão de que a última decisão foi errada", diz Vale. Mas, para a reunião de setembro, consolida-se mais fortemente a possibilidade de o Copom voltar ao 0,25 ponto, "muito provavelmente para reverter um pouco da perda de credibilidade por conta da meta".
Para Marco Aurélio Garcia, diretor da Mag Consultoria, a decisão do CMN de fixar a meta em 4,5%, quando o mercado achava possível, com folga, meta de 4%, passou ao mercado a mensagem de que o "compromisso com o combate à inflação estava deixando de ser racional para ser político". Outro recado foi o de que as autoridades econômicas não estão com o pensamento alinhado nem em harmonia. O mercado entendeu também que a meta de 4,5% significava "planejar o aumento da inflação". A resposta imediata a estas mensagens foi o aumento da taxa de juro de longo prazo.
Pedro Paulo B. da Silveira, economista-chefe da Gradual Corretora, acredita na preservação do compasso atual porque o nervosismo demonstrado pelo mercado de juros local deve-se muito mais à saída de estrangeiros e à mudança do discurso do BC, tanto na ata da última reunião do Copom e quanto no Relatório de Inflação, do que a qualquer evento importante no lado dos preços. "Dada a diferença entre os juros praticados nos Brasil (6% em termos reais) e o dos EUA (2% em termos reais), há toda uma avenida de espaço para a redução dos juros básicos por parte do Copom", diz Silveira.
O economista macroeconômico da Lote45 Participações, Fernando Fenolio, lembra que como a influência da taxa de câmbio apreciada foi a principal justificativa para acelerar o processo de queda dos juros, "seria contraditória uma mudança de postura", quando o dólar transita abaixo de R$ 1,90 por causa dos superávits comercial e em conta corrente. "Embora a expectativa de inflação tenha subido desde a última reunião -de 3,50% para 3,68% -, a totalidade desde aumento pode ser creditada à surpresa inflacionária de junho, quando o mercado esperava um IPCA de 0,10% no início do mês, enquanto o dado efetivo alcançou 0,28%. Note-se aí que o aumento da expectativa para 2007 (+ 0,18 ponto) foi na mesma magnitude da correção entre o dado projetado e realizado (+ 0,18 ponto). Não houve contaminação da inflação futura", diz ele. Para o analista da Lote45, uma redução de ritmo agora, imediatamente após uma intensificação do afrouxamento, " iria arranhar ainda mais a credibilidade do BC". Uma diminuição no ritmo iria apenas aumentar a volatilidade da curva de juros e passaria um sinal de insegurança do BC para o mercado.