Título: VCP e Suzano montam estratégia para ficar entre as líderes globais
Autor: André Vieira
Fonte: Valor Econômico, 18/01/2005, Empresas &, p. B1

Elas se juntaram em busca de um objetivo comum, na aquisição da Ripasa, em novembro: a meta era barrar a entrada de concorrentes do exterior. Agora, armam suas estratégias de longo prazo, separadamente, para marcar uma posição de destaque no ranking dominado por gigantes internacionais. Votorantim Celulose e Papel (VCP) e Suzano Bahia Sul, os dois maiores grupos nacionais de papel e celulose, já desenharam seus planos para até o fim da próxima década. Mais do que a sobrevivência do negócio, o plano ajusta o rumo das empresas no cenário cada vez mais acirrado de competição global. A VCP, da família Ermírio de Moraes, planeja produzir 2 milhões de toneladas de papel e 4 milhões de toneladas de celulose em 2020, triplicando seu tamanho em relação ao atual porte. A Suzano, da família Feffer, traçou seu o alvo para dois a três anos antes. Os dois grupos familiares, ao se unirem para comprar a Ripasa, confrontaram a americana International Paper e a sueco-finlandesa Stora Enso. Com isso, impediram que essas rivais ampliassem suas posições no Brasil. Quando adquiriram a Ripasa, Murilo Passos e José Luciano Penido, os principais executivos de Suzano e VCP, respectivamente, disseram que a compra foi uma oportunidade única, mas salientaram que os planos futuros dependiam das estratégias de cada uma. É cedo ainda para saber se um dia as empresas voltarão a atuar juntas. Mas a estratégia de longo prazo está sendo elaborada individualmente para que cada um deles ganhe musculatura global. "Temos de ficar entre os 10 maiores do mundo, porque a partir da 11ª posição as empresas viram alvo de aquisições", diz um executivo de uma das empresas. Depois da duplicação da fábrica de Jacareí (SP), a VCP aproximou-se das dez primeiras fabricantes. A nova expansão da Suzano, que vai operar a pleno vapor em 2008, também deixará a empresa perto das "top ten". A lista é liderada pela IP, que fatura US$ 25 bilhões. Pela primeira vez desde sua entrada no setor, no fim dos anos 80, o grupo Votorantim traçou seu planejamento estratégico para sua empresa de papel e celulose para os próximos 15 anos - ou dois ciclos de crescimento de eucalipto, a madeira mais usada para produção de celulose no país. A indústria integrada de papel e celulose - do plantio de florestas à produção de celulose e à fabricação de papel - costuma dar saltos quando sua base florestal está madura para o corte. Nenhum projeto sai do papel hoje produzindo menos de 1 milhão de toneladas. No Brasil, onde o ciclo é considerado um dos mais curtos (sete anos), um projeto de investimentos exige no mínimo US$ 1 bilhão. No caso da produção de papel, máquinas com capacidade inferiores a 300 mil a 400 mil toneladas por ano são consideradas insuficientes para movimentar o mercado. Segundo apresentação realizada na semana passada a investidores da Bolsa de Valores de Nova York (Nyse), onde suas ações são negociadas, a VCP informou que já deu início a sua arrancada. A VCP plantou as bases de sua nova fronteira agrícola ao montar um programa que prevê o plantio de eucaliptos no sul do Rio Grande do Sul, com possibilidades de chegar no Uruguai. "A meta é garantir o suprimento de madeira para apoiar o crescimento de longo prazo da VCP", destacou a empresa. A fabricante já possui 62 mil hectares no sul onde vê boa disponibilidade de terras com custos atrativos que hoje servem para pecuária. Sua meta é alcançar 100 mil hectares, dos quais 30% devem ser produzidos por pequenos e médios agricultores. Também examina a possibilidade de uso do porto de Rio Grande como plataforma para exportação e a exploração do transporte intermodal (usando ferrovias e rodovias). Dona da maior distribuidora da papéis do país, a KSR, a empresa buscará o crescimento nas exportações de papéis para escritórios. "Nossa estratégia é ser líder regional e ter presença global na área de papéis de imprimir e escrever", disseram os executivos da VCP aos investidores estrangeiros na Nyse. Um passo à frente da rival na produção de celulose, a Suzano está conversando com os fornecedores de máquinas para construção de sua segunda linha de celulose em sua unidade de Mucuri, no sul da Bahia - um projeto que adicionará 1 milhão de toneladas para o grupo até meados de 2007 e que poderá ser expandido mais 25% até 2013. Depois disso, a empresa estuda um novo pulo na produção com a introdução de uma terceira linha de celulose na Bahia. A decisão não sai antes de meados da próxima década. Mas a empresa já investe em tecnologia no desenvolvimento de mudas em terras que possui no Maranhão e no Vale do Jequitinhonha (MG). Avalia projetos para o transporte de madeira destas regiões para sua fábrica em Mucuri, fazendo com que o grupo chegue a 4 milhões de toneladas de celulose por volta de 2017-2018. Mas os planos de longo prazo das duas empresas poderiam ser encurtados. Ambas não descartam a possibilidade de aquisições. Na apresentação aos investidores estrangeiros, a VCP avalia que existam oportunidades em crescimento por meio de aquisições e fusões na área de celulose. Em 2001, o grupo Votorantim comprou 28% das ações de controle da Aracruz, a maior exportadora de celulose de eucalipto do país. Hoje, segundo analistas, as atenções se voltam para os movimentos dos outros sócios da companhia - a família de origem norueguesa Lorentzen e o grupo Safra. Um acordo de acionistas impede mudanças no bloco de controle até 2008. Se a VCP ampliasse seu poder sobre a Aracruz, a empresa anteciparia em quase uma década sua meta de chegar a 4 milhões de toneladas de celulose. A VCP informou que não comentaria seu plano de longo prazo. A Suzano também vê chances de crescer. O grupo já foi sócio da Portucel, empresa portuguesa, mas a parceria foi desfeita no início em 2002, quando o grupo decidiu alavancar sua posição no país. As oportunidades na Europa são raras, mas podem surgir na medida em que fabricantes de papéis - pressionados pelo alto custo de produção local de celulose - ponham seu negócio à venda. Rivais chilenas, que hoje investem pesado para ampliar suas capacidades, são caras demais, na avaliação do mercado. Não escapa da mente dos executivos da Suzano uma avaliação dos ativos da própria VCP numa hipótese de o grupo Votorantim um dia sair do negócio por outros interesses. Mas há quem diga que a Suzano teria de abrir mão de um dos anéis - a área petroquímica - no meio do caminho. A VCP divulga hoje seus resultados do quarto trimestre. A expectativa do HSBC é de um lucro anual de R$ 940 milhões. A Suzano fará seu anúncio depois do Carnaval.