Título: Serra critica União por não resistir a pressões de aéreas
Autor: Agostine, Cristiane
Fonte: Valor Econômico, 20/07/2007, Especial, p. A9

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), criticou ontem o governo federal por não ter resistido às pressões comerciais das empresas de aviação. Na crítica feita pelo governador, "os interesses comerciais" tiveram peso maior do que a segurança dos aeroportos. Serra disse também que, até o fim da tarde de ontem, ainda não havia sido procurado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Não conheço uma companhia aérea cuja finalidade não seja o lucro. A maximização do lucro leva a essa hiper concentração em Congonhas. Não sou contra as companhias aéreas privadas, mas acho que o poder público tem que atuar com poder contrabalanceador, anti-cíclico e não pró-cíclico nessa matéria", afirmou ontem o governador. "O poder público tem que contrabalançar o peso dos interesses privados e, ao meu ver, não contrabalançou adequadamente nos últimos anos", disse.

Sem deixar de mostrar o descontentamento com o governo federal, Serra afirmou que as questões estruturais do aeroporto estão por trás do acidente, independentemente de qual foi a causa imediata e relatou ter ficado surpreso com os R$ 300 milhões gastos pela Infraero nas obras em Congonhas. "Me pergunto se esse dinheiro não teria sido mais útil para ter trabalhado antes a pista, equipamentos e investir em Viracopos", apontou. "É preciso vencer o predomínio dos interesses puramente comerciais na política aeroportuária brasileira, porque esses interesses têm prevalecido no caso de Congonhas, no caso do Sudeste, incluindo o aeroporto do Rio de Janeiro."

Ele criticou que são feitos investimentos que trazem retorno político e visibilidade em detrimento às obras na pistas, na segurança e investimentos em operacionalidade. Entretanto, evitou falar sobre o presidente Lula. "A despeito do que ele faz e do que deixa de fazer, me eximo de comentar".

O governador resumiu os problemas do aeroporto em três pontos centrais: está dentro da capital, não possui área de escape e opera acima da capacidade. "Infelizmente isso não impediu que recentemente a Anac (Agência nacional da Aviação Civil) cedesse mais quatro lotes ao aeroporto. Foi de 44 para 48 lotes, apesar de ser um aeroporto bastante congestionado."

Serra voltou a defender a redistribuição dos vôos do aeroporto de Congonhas para outros aeroportos, evitando que haja horários de pico. "Esses horários de pico são frutos de interesses comerciais. Não que os interesses comerciais não sejam legítimos. São legítimos de ser apresentados, mas não podem predominar", disse, após participar do congresso de fundação da central sindical União Geral dos Trabalhadores (UGT).

O governador disse que o Estado está disposto à investir no sistema de transporte que ligaria os aeroportos de Viracopos e Guarulhos à capital, mas ressaltou que o governo federal precisa investir também. Em seguida, reclamou dos entraves para o Estado contrair empréstimos.

Representando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no mesmo evento da UGT, tanto o ministro da Previdência, Luiz Marinho, quanto o Secretário Geral da Presidência, Luiz Dulci, disseram que o presidente não está se omitindo, apesar de ainda não ter dado nenhuma declaração pública, nem falado com Serra. " O governo já se pronunciou, de maneira muito vigorosa, como deveria ser", afirmou Dulci. "O episódio está sendo tratado com muita seriedade. " Para Marinho, não se deve "usar uma tarefa para eventual proveito político, independente quem seja", antes da conclusão das investigações.