Título: Nobel vê previdência em apuros
Autor: Fariello, Danilo e Vieira, Catherine
Fonte: Valor Econômico, 20/07/2007, EU & Fim de Semana, p. 4
Robert W. Fogel é um economista cujo trabalho está diretamente ligado aos estudos dos impactos do envelhecimento da população na sociedade e dos porquês da disparada da longevidade nas últimas décadas. Aos 81 anos, o vencedor do Nobel de Economia de 1993 é um exemplo dos idosos que continuam na ativa. Atualmente, Fogel dirige o Centro de Estudos da População da Universidade de Chicago, onde realiza pesquisas para entender mudanças socioeconômicas.
Valor: Quais são os principais impactos do aumento da média de idade da população na economia mundial?
Robert W. Fogel: A economia se adapta muito rapidamente. O tempo de trabalho necessário para prover uma família com alimento despencou, por exemplo. No início do século XX nos Estados Unidos, um homem precisava trabalhar 1.800 horas por ano para alimentar sua família e, hoje, precisa trabalhar apenas 240 horas para isso. A produtividade ainda cresce muito rapidamente. Mas as taxas de fertilidade estão caindo e a média de idade da população provavelmente chegará ao seu pico no século XXI, para só depois cair novamente. Com isso, minha principal preocupação é o sistema de saúde, que se tornará a maior parcela da economia. Também a previdência pública do mundo preocupa.
Valor: Por quê?
Fogel: Todos os sistemas de previdência pública estão em apuros. Eles estão a caminho de uma quebra em cerca de 20 anos, se nada for feito para consertar isso. Nos países ricos, é pior, porque a demanda por gastos está crescendo mais rápido do que o volume de impostos para bancar os aposentados. Muitos países, como Chile, Malásia e outros do sudeste asiático, adotaram sistemas alternativos de previdência privada.
Valor: Como a saúde incomoda?
Fogel: Nos EUA, já 15% do PIB vai para a saúde. Daqui a 30 anos, provavelmente essa fatia chegará a 30%. Isso não ocorrerá porque as pessoas ficarão mais doentes, mas porque serão tão ricas que vão querer o melhor de tudo. Temos já novas tecnologias, e muitas chegando todos os dias, que mitigarão doenças crônicas severas. Ao longo do século XX, nos EUA, a maioria das pessoas se aposentava aos 50 anos e hoje isso ocorre 15 anos mais tarde. O encerramento do período de trabalho está sendo levado à frente. As doenças crônicas caíram pela metade e muitos morrem sem nunca ter sido acometido por alguma delas. Temos também muitos remédios e procedimentos cirúrgicos mais desenvolvidos. Se você tem uma dor terrível na bacia, poderemos trocá-la, por exemplo.
Valor: Por que os países mais ricos devem sofrer mais nesse aspecto?
Fogel: Se você é mais pobre, está preocupado com preservação da vida. Você não tem tempo para gastos maiores com bem-estar. Se você tem uma dor no ombro, você não terá direito de ir ao médico, porque tem de continuar trabalhando. Em um país rico, nesse caso, você vai ao médico, porque lá você terá benefícios que ga
Valor: rantem isso. Portanto, os gastos com saúde crescem mais rápido nos países ricos.
Valor: Quais são as preocupações com os sistemas públicos de pensões e saúde?
Fogel: Há duas questões importantes. A primeira é quanto do PIB você precisará para o sistema de saúde. O segundo é como você financiará isso. Nas universidades americanas, por exemplo, todos os funcionários são estimulados a colocar entre 12% e 17% do salário em títulos que bancarão a aposentadoria. Eu já estou pagando por isso com meu salário.
Valor: Esse valor, portanto, seria mais acumulado de forma privada do que pública.
Fogel: A diferença entre privado e público, nesse caso, é quando o dinheiro passará pelo governo. Em algum momento, os impostos serão cobrados. Agora, pessoas são chamadas a pagar pela saúde 55% dos custos elas mesmas e 45% são pagos pelo governo nos EUA, em valor recolhido por todos os trabalhadores. E isso é transferido aos mais velhos. Muitos países estão experimentando diferentes saídas para o problema do envelhecimento. A principal delas, recomendada pela OCDE, é transferir o sistema de pensão do público ao privado.
Valor: No Brasil, a população envelhece em um ritmo mais rápido do que nos países ricos. Devemos nos preocupar mais?
Fogel: Tudo depende da velocidade em que a taxa de natalidade cai. Na Itália, as taxas de fertilidade são baixas e não crescem. Em duas gerações, a população da Itália cairá de 60 milhões para cerca de 30 milhões. A média de idade da população será de cerca de 50 anos. Nos EUA, a população ainda cresce, mas em muitos países europeus há redução, por isso tentam crescer por imigração, para elevar o número de trabalhadores para financiar a previdência pública e o sistema de saúde.
Valor: Um dos temas centrais das últimas eleições francesas foram as relações de trabalho. Isso tem a ver com a longevidade?
Fogel: Sim. Na França, a idade média de aposentadoria está abaixo dos 60, mas a longevidade está crescendo rapidamente. E é por isso que eles enfrentam essa crise, sem saber quem vai pagar pelas aposentadorias. Eles estão vivendo essa crise porque não têm o dinheiro para bancar isso.
Valor: Como as empresas devem lidar com essa nova realidade?
Fogel: Uma verdade sobre o capitalismo é que as firmas produzem o que as pessoas demandam. Portanto, há muita demanda por novos produtos medicinais e farmacêuticos. Empresas desses setores tendem a crescer mais rapidamente. Essas empresas já estão melhorando seus produtos, com inovações.
Valor: O sr. disse que as melhoras no século XX foram subestimadas porque se ignoraram avanços no bem-estar das pessoas. O sr. acha que isso mudou?
Fogel: Sim, muitas pessoas estão medindo fatores ligados ao desenvolvimento. Descobrem, por exemplo, que as vantagens econômicas e sociais de um bom tratamento de saúde excedem o que se pensava. Não medem apenas quanto se gasta com saúde, mas quanto isso vale. Em outros produtos, medimos a contribuição ao PIB pelo quanto valem, mas em saúde medimos as conseqüências e não os custos.