Título: Mediador industrial diz que não sabe se países querem negociar seriamente
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 24/07/2007, Brasil, p. A2

O mediador da negociação de produtos industriais na Organização Mundial do Comércio (OMC), Don Stephenson, respondeu ontem a críticas do Brasil e de bom número de países sobre o texto de compromisso que apresentou para um acordo na Rodada Doha. "A única questão é se os países querem uma negociação séria e intensa a partir de setembro", afirmou em entrevista ao Valor. "Eu não estou certo disso. A resposta tem que vir logo, em duas ou três semanas."

Ele disse que o tempo é curto e a ameaça é séria. Estima que, se não houver entendimento neste outono europeu (setembro-novembro), a negociação global será então adiada "por vários anos". Tranqüilo e indagando em tom bem humorado que está "contente" com seu texto, ele próprio fez um balanço das críticas que vem recebendo. Calcula que 75% é sobre desequilíbrio no desenvolvimento da proposta, comparado ao texto agrícola. E 25% é sobre as cifras de cortes nas tarifas, com alguns achando pouco e outros achando pesado demais.

O embaixador brasileiro na OMC, Clodoaldo Hugueney, na coordenação do G-20, é incisivo: "O texto agrícola é uma base muito melhor para trabalhar, é mais equilibrado."

Stepheson tem argumento para cada detalhe do que escreveu. Em geral, sua resposta é de que, se os países acharem que sua proposta não é equilibrada, "que trabalhem para aumentar a ambição na área agrícola, em vez de tentar reduzi-la em produtos industriais".

Ele insistiu que cabe aos países "negociar em setembro para ter o resultado que desejarem, para mudar o que não lhes agrada". Lembrou que, como não havia entendimento, "me pediram para adivinhar o ponto de partida", mas que está pronto a revisar a proposta.

Stepheson acredita que atendeu sugestões do Nama-11, grupo do qual o Brasil e a Argentina participam - mas não o coeficiente 35 para o corte nas tarifas dos países em desenvolvimento, porque afinal a negociação precisa garantir alguma abertura de mercado. Disse que o grupo formado por Chile, México, Cingapura, Hong Kong e outros quatro com tarifas baixas, que apresentou proposta intermediária semelhante à sua, tem interesse ofensivo para exportar mais. Reiterou que levou em conta a "reciprocidade menos que total" prevista para países em desenvolvimento "através de sinalizações dadas pelos países, já que não havia definição do tema".

Com relação a uma lista de produtos ambientais, não há nenhum acordo ainda. Esses produtos deverão ter corte tarifário maior. O mediador aguarda a negociação entre os países, inclusive sobre a inclusão do etanol. Stephenson disse que etanol não é Nama (produtos industriais), mas pode entrar numa lista agrícola e ser coberto pela negociação de produtos ambientais, dependendo do que for acertado no Comitê de Meio Ambiente. O ministro Celso Amorim já avisou que uma lista de bens ambientais só terá apoio do Brasil se o etanol for incluído. Os países ricos preferem visivelmente incluir desde veleiros a bicicletas.

Os textos dos mediadores das negociações agrícola e industrial foram apresentados na semana passada para tentar compromisso entre os 150 países-membros, depois da sucessão de fiascos na Rodada Doha. Na agricultura, a proposta na mesa é de corte tarifário médio acima de 50% e redução dos subsídios americanos a algo entre US$ 13 bilhões ou 16,4 bilhões. Na área industrial, o mediador defendeu coeficientes 19 ou 23 para emergentes, o que dá corte entre 55% a 60% nas tarifas no Brasil. A tarifa máxima no Brasil ficaria em 23% comparado aos 35% hoje para importação de automóveis.

Nos países ricos, o coeficiente seria de 8 a 10, significando que as tarifas médias nos EUA e na União Européia ficariam abaixo de 2%.