Título: Câmbio vai influir na lista de sensíveis
Autor: Moreira, Assis
Fonte: Valor Econômico, 25/07/2007, Brasil, p. A3

O governo brasileiro levará em conta a queda do dolar, que facilita importações, para definir a lista de mais de 800 produtos industriais sensíveis do Mercosul, que serão protegidos com menor corte de tarifas num eventual acordo da Rodada Doha.

A escolha está sendo feita com base em critérios que refletem indiretamente a realidade cambial: a competitividade setorial e equilíbrio entre importações e exportações, a margem de preços e o nível de emprego. "A tendência é proteger quem tem tarifa mais alta, considerando a realidade econômica de cada setor", diz um negociador.

A valorização do real produz aumento das importações, que ajudam na queda dos preços internos, mas que podem ter impactos negativos no emprego e na renda nacional e reduzir o ritmo de expansão das exportações.

A primeira lista de sensíveis do Brasil, submetida aos parceiros do Mercosul, cobria seis setores: móveis, têxteis, calçados, máquinas, eletrônicos e químicos. A Fiesp propôs a inclusão de automotivo, autopeças, alumínio, bicicletas, plástico, couro, pneus, papel, ferramentas, relógios, instrumentos óticos e produtos de higiene.

O Brasil, a principio, resolveu só incluir na lista os produtos que sofrerão corte superior a 2% na tarifa aplicada, levando em conta fórmula com coeficiente 30, alto demais e irrealista para permitir um acordo em Doha. A Argentina foi além, e na primeira lista incluiu metade das linhas tarifárias para serem protegidas, usando o coeficiente 35. Se o corte geral for de 50%, para os sensíveis fica em 25%.

Negociadores minimizam duas dificuldades: primeiro, internamente, porque não há espaço para proteger todos os que querem se defender da concorrência externa. E segundo, as divergências dentro do próprio Mercosul. A Argentina e o Brasil têm indústrias a proteger, o que ocorre em grau menor com o Uruguai. Os uruguaios, em todo caso, teriam sinalizado ao Brasil que também fazem seus cálculos com base no coeficiente 30.

O Paraguai igualmente tem aspirações mais liberalizantes que os vizinhos, mas vai se beneficiar de exceções. Por ser considerada "economia pequena e vulnerável", terá produtos submetidos a cortes tarifários bem menores.

Para a Fiesp, é importante esperar a definição da fórmula de Doha. A barganha pela escolha dos sensíveis na OMC passará por critérios políticos. Quanto mais um país aceitar participar de acordos setoriais, que aprofundem a liberalização, mais poderá incluir bens na lista de sensibilidades. (AM)