Título: Risco-Brasil sobe 21% e real desaba
Autor: Lucchesi, Cristiane Perini e Guimarães, Luiz S.
Fonte: Valor Econômico, 27/07/2007, Finanças, p. C1
A crise com a inadimplência no mercado de hipotecas dos Estados Unidos atingiu em cheio os mercados de papéis de dívida de maior risco, inclusive dos países emergentes, que vinham sendo considerados um porto seguro de menor volatilidade em meio às turbulências. O amplo contágio trouxe temores de um aperto global no crédito e levou a um movimento de pânico e forte aversão ao risco. Os títulos da dívida externa brasileira despencaram e o risco-Brasil, que se move no sentido contrário aos preços, foi para 221 pontos básicos, alta de 21,31%, a maior desde 27 de agosto de 1998. Desde o dia 18 de junho, seu nível mínimo, o risco-país já subiu 60%.
As moedas dos países emergentes terminaram o dia com desvalorização. No Brasil, o dólar fechou em alta de 3,27%, cotado a R$ 1,9270, retornando ao preço do final do mês passado. A valorização de 3,26% foi a maior desde 24 de maio de 2006. Os juros futuros subiram com força: o contrato mais negociado na Bolsa de Mercadorias & Futuros, com vencimento em janeiro de 2010, avançou 0,33 ponto, de 10,92% ao ano para 11,25% ao ano.
O Tesouro brasileiro suspendeu leilão de títulos públicos devido às turbulências. A aversão ao risco e o desmonte de posições alavancadas fizeram os investidores correrem para comprar títulos do Tesouro americano, tido como o investimento mais seguro do mundo, no movimento conhecido como "fuga para a qualidade". Os preços desses papéis subiram e os juros, que se movem no sentido contrário, tiveram a maior queda desde 2004. As taxas dos papéis de vencimento em dez anos tiveram redução de 0,127 ponto percentual, para 4,777% ao ano.
O contágio chegou às bolsas, que até o início desta semana vinham se mantendo relativamente imunes à crise, impulsionadas por grandes aquisições alavancadas e compras de ações financiadas. A razão: com menos crédito, o volume das aquisições deve se reduzir e os bancos de investimento não vão conseguir se desfazer tão facilmente dos empréstimos que fizeram aos fundos de private equity para financiar as compras. Nesta semana, bancos desistiram de vender US$ 20 bilhões em títulos de dívida relacionados às compras da Chrysler e da Alliance Boots por falta de interesse dos investidores, diz o "Financial Times". O mercado de venda de bônus para operações alavancadas está fechado.
O índice Dow Jones, das ações mais negociadas em Nova York, caiu 2,26%, acumulando tombo de 3,37% desde segunda-feira. Os bancos de investimento com forte atuação no mercado de aquisições alavancadas foram especialmente afetados: as ações da Goldman Sachs caíram 7%, da Bear, Stearns, 7,5%, e da Lehman Brothers, 8,3%. A Bolsa de Valores de São Paulo chegou a cair 6%, para fechar em baixa de 3,76% ontem e de 7,14% desde segunda-feira.
Os fundos de hedge - que vinham se protegendo da queda dos preços dos papéis de maior risco das empresas americanas ("high yield") vendendo seguro de risco de crédito dos países emergentes no mercado de derivativos de crédito - tiveram de desfazer suas posições, o que elevou o preço do seguro, explica John Welch, analista da Lehman Brothers. O seguro contra o risco de crédito do Brasil pelo prazo de cinco anos, que já chegou a custar 40 pontos básicos sobre a Libor, taxa interbancária de Londres, no seu melhor momento, subiu para 140 pontos básicos ontem, uma alta de 50% em um dia.
O iene teve alta contra o dólar, de 1,4%, com os investidores se desfazendo das posições conhecidas como "carry trade" - tomam financiamento em iene a juros baixos e aplicam nos juros altos em reais ou outras moedas. "Houve uma abrupta redução de posições fortemente alavancadas e de investidores reduzindo sua exposição ao risco", comentou Alexandre Lintz, estrategista do BNP Paribas.
Os temores de perdas globais em vários fundos se ampliaram após o australiano Absolute Capital, fundo no qual o ABN AMRO tem participação, ter anunciado que não vai mais permitir resgates. Os dados sobre a queda de 6,6% na venda de novas moradias nos Estados Unidos divulgados ontem não ajudaram - o mercado esperava 2,7%.
"É como uma bola de neve. As perdas levam a mais desmonte de posições", diz Ricardo Amorim, analista-chefe para a América Latina do WestLB. Segundo ele, a crise no mercado de hipotecas dos EUA já vinha afetando o mercado de crédito de maior risco nas últimas duas semanas, mas nesta semana chegou às bolsas. Amorim acha "possível, mas pouco provável", um aperto maior no crédito global. "Os fundamentos da economia mundial não mudaram", diz. Welch e Pedro Paulo B. da Silveira, economista-chefe da Gradual Corretora, concordam. Para Silveira, não se pode imaginar que um país como o Brasil, que tem reservas internacionais superiores à dívida externa e que desfruta de superávit em transações correntes, possa ter risco superior a 200 pontos básicos. "A intensidade do nervosismo foi surpreendente e atropelou todos os fundamentos", diz Silveira.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, em entrevista à "Bloomberg" em Washington, disse que a crise no mercado de hipotecas não representa perigo para a economia americana. "O risco está sendo reprecificado. À medida que nós temos uma ampla reprecificação, nós temos volatilidade."