Título: Crédito ao consumo mantém força
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Fonte: Valor Econômico, 08/08/2007, Finanças, p. C1
Os dados de crédito para pessoa física têm confirmado as expectativas positivas dos bancos de crescimento do saldo da carteira e das receitas para compensar a queda da rentabilidade com títulos, fruto da redução das taxas de juros. Nos últimos 12 meses, o avanço do saldo dos empréstimos foi de 23,6%, segundo dados do Banco Central. A previsão para o fechamento do ano está acima dos R$ 230 bilhões.
O presidente do Banco Real e da Federação Brasileira de Banco (Febraban), Fábio Barbosa, confirmou essa avanço durante divulgação do resultado do banco. Segundo ele, o crédito para a pessoa física cresceu acima do esperado, 27%, chegando a R$ 26,65 bilhões. O avanço levou o Real a elevar a perspectiva de crescimento da carteira total, que inicialmente estava entre 20% e 25%, para o limite superior da faixa, 25% até o final do ano.
O Bradesco também reviu as projeções da carteira total. A previsão inicial era de elevação entre 20% e 25% este ano. Mas com o forte aumento do número de empréstimos, a projeção é que a carteira deve se expandir agora entre 21% e 27%, informa o presidente do Bradesco, Marcio Cypriano. Nas pessoas físicas, a expansão no semestre foi de 22%. A meta é que esta carteira aumente até 30% este ano, influenciado por operações com cartões de crédito, financiamento a veículos e consignado.
Os empréstimos com desconto em folha, inclusive, tendem a ganhar fôlego ainda maior com a incorporação das operações do BMC no segundo semestre. A compra do banco foi aprovada pelo Banco Central na semana passada. Com isso, a carteira do consignado deve aumentar em R$ 600 milhões, chegando a R$ 5,1 bilhões no Bradesco.
O Itaú, apesar de não revisar para cima as metas, ressaltou o bom resultados das pessoas físicas e a previsão de crescimento de 35%.
O José Paiva Ferreira, vice-presidente executivo de negócios e marketing do Santander, também acredita que o mercado de crédito tende a se manter aquecido no segundo semestre. O banco projeta crescimento de 25% a 30% para a sua carteira total de crédito, com destaque para o segmento de pessoa física, que no primeiro semestre cresceu 30%, chegando aos R$ 13,9 bilhões. O consignado, subiu 71%; o crédito a veículos 35% e as operações com cartões, 67%.
Entre os bancos médio, a perspectiva também é otimista para o resto do ano. O vice-presidente da Associação Brasileira de Banco (ABBC), Renato Oliva, que também é diretor do Banco Cacique, lembra que as ofertas iniciais de ações (IPO, da sigla em inglês) desses bancos captaram mais de R$ 4,5 bilhões somente em ofertas primárias, elevando a capacidade de empréstimos. De fato, estudo da agência de risco Standard & Poor's diz que esses recursos podem gerar R$ 25 bilhões em novos financiamentos.
A liquidez do mercado também tem elevado os depósitos nos bancos médios, permitindo maior alavancagem e aumento da oferta de crédito, enfatiza o presidente do Banco Pine, Emílio Carazzai. O crescimento da carteira para pessoas físicas do banco, o primeiro do setor a entrar na bolsa neste ano, foi de 300% em doze meses e já representa 40% do total dos empréstimos.
Além da alta nas carteiras, os resultados também refletem o bom momento para os bancos. Para o analista da Quest Investimentos, Luiz Henrique Guerra, os resultados anteriores mostraram que, mesmo com a queda da Selic, os bancos vêm conseguindo substituir os ganhos de tesouraria por lucros com crédito. "Em anos anteriores a queda da Selic já havia sido compensada, mas agora havia um receio de que afetaria ainda mais, mas isso não vai se verificar", diz.
Para o analista da ABN AMRO Real Corretora, José Francisco Cataldo, mesmo com a queda das taxas de juros, o custo de captação também recuou, fazendo com que o spread básico médio tenha caído muito pouco.
Além disso, houve uma migração para financiamentos com garantias reais (como consignado e veículos), que hoje representam 65,5% do total das operações, segundo dados do BC. Antes da criação do consignado, em 2003, a proporção era de 43%.
Para os próximos anos, no entanto, analistas vêem uma leve desaceleração. Estudo da Partner Conhecimento indica que volume de crédito ao consumo pode chegar a R$ 300 bilhões em 2010, diz o sócio da consultoria, Álvaro Musa. Isso indica uma leve desaceleração no crescimento, que atualmente está em 24%, para algo próximo a 18%. O levantamento prevê ainda uma taxa de juros média de 35% ao ano, queda, portanto, em relação aos atuais 48,4% e inadimplência na casa dos 4,5% (hoje está em 7,1%), prevê o executivo.