Título: Os ricos também choram
Autor: Bueno, Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 07/08/2007, EU & Investimentos, p. D1
Nos últimos cinco anos, José (o nome é fictício, mas a história não), um executivo da área comercial, hoje com 40 anos e dois filhos, multiplicou por três os ganhos na empresa em que trabalhava no Rio Grande do Sul. Com os rendimentos reforçados pelos bônus e comissões obtidos graças ao bom desempenho profissional, ele elevou o padrão de vida, mas afrouxou o controle dos gastos e acabou descendo do céu do consumo fácil ao inferno das dívidas insuportáveis. Em pouco tempo, não conseguiu pagar as contas e teve o nome inscrito nos cadastros do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e da Serasa.
"Passei a gastar sem controle e não me preocupar com planejamento, chegava a ir duas ou três vezes por mês passar o fim de semana no Rio ou até no Nordeste", relata José. "Queria ter o melhor carro e colocar meus filhos nas melhores escolas e tive uma elevação brutal nos gastos." A partir daí, o executivo conta que não conseguiu mais diminuir o padrão de vida e passou a se endividar. "Comecei a usar cartões de crédito e acabei entrando no SPC e na Serasa". No auge da crise, as despesas mensais ultrapassavam em 70% o salário do executivo e a dívida acumulada equivalia a dez meses de seus rendimentos.
Para piorar, José perdeu o emprego e o descontrole na conta bancária atrapalhou a recolocação no mercado. E embora não admitam, as empresas vêem com desconfiança os profissionais que não gerenciam bem o próprio dinheiro. Hoje, depois de uma longa fase de angústia e de "aprender na dor" a controlar o orçamento, inclusive com a ajuda de cursos de administração financeira, José reorganizou a vida, arrumou um novo emprego e consegue poupar. Mas a história dele é mais comum do que se pode imaginar.
Uma pesquisa feita pela Produtive, especializada em recolocação e planejamento de carreira de Porto Alegre, mostrou que 15% dos 3 mil profissionais atendidos nos últimos dez anos estavam com o nome cadastrado nas listas de maus pagadores. "Sempre tive a percepção de que o pilar financeiro era um problema na hora da recolocação, mas tomei um susto ao ver este número concreto", comenta o diretor executivo da consultoria, Rafael Souto.
Conforme o consultor, o problema não é salário. É descontrole: muitos executivos gastam mais do que ganham e sucumbem ante o peso dos juros do cheque especial, do cartão de crédito e dos empréstimos bancários. A Produtive trabalha com profissionais de média e alta gerência para cima, com rendimentos médios de R$ 12 mil por mês e que podem ultrapassar os R$ 20 mil mensais. Há casos excepcionais, mas que também revelam descuido, como o de um cliente que, na separação, deixou um automóvel ainda financiado para a ex-esposa. Como ela não pagou e ele era devedor solidário, entrou junto no SPC e na Serasa.
Em outras ocasiões, até uma dose de consciência pesada conspira para o desequilíbrio financeiro. Submetidos a longas jornadas de trabalho, alguns executivos sentem-se culpados pelo pouco tempo que dedicam à família e compensam a ausência com uma liberalidade extrema nos gastos deles próprios e dos filhos, comenta Souto. "Com a sobrecarga da vida executiva, eles não querem negar prazeres para a família", constata.
O que se cria com tudo isso, conforme o consultor, é uma figura curiosa. O sujeito é qualificado, fala mais de um idioma e costuma viajar ao exterior. Na empresa, é rigoroso no controle dos gastos e dos processos. Combate desperdícios, estabelece metas e cobra desempenho dos subordinados, barganha com fornecedores e não aceita prejuízo na hora da venda. Mas, quando chega em casa, não consegue aplicar quase nada do que pratica todos os dias no escritório.
A Produtive detectou ainda que, em geral, a demissão não é a causa dos problemas financeiros. O desequilíbrio é anterior e quando o dinheiro da rescisão entra para tapar os buracos, novas turbulências se anunciam. A recolocação leva, em média, de quatro a seis meses e, se o executivo não tem reservas líquidas para enfrentar este período, entra em um processo de estresse, começa a se desfazer de patrimônio e não tem condições emocionais de avaliar corretamente as oportunidades. "Ele acaba aceitando qualquer oferta e dificilmente conseguirá construir uma carreira vencedora", afirma Souto.
Segundo o consultor, cerca de 40% dos executivos pesquisados estão no nível "ideal" de reservas, com disponibilidades iguais ou superiores a seis meses de despesas. Outros 45% estão "no azul", mas com fôlego suficiente para uma transição mais curta. Os 15% restantes são os seriamente endividados, que, antes de seguir adiante no processo de recolocação, precisam "limpar o nome" dos cadastros de inadimplentes. Conforme Souto, a posição das empresas é pragmática nestes casos: elas evitam contratar funcionários em crise financeira porque entendem que, no limite, eles estarão suscetíveis a pressões e até à corrupção.
A maior incidência do problema aparece entre profissionais com idade acima dos 35 anos, explica o diretor da Produtive. São pessoas formadas em um contexto de empregos mais estáveis e, portanto, de rendimentos mais previsíveis, explica. Os jovens até os 30 anos, ao contrário, estão mais conscientes de que o mercado se tornou mais "volátil" e já adotam práticas de planejamento financeiro com maior freqüência, constata o consultor.
De acordo com Souto, a situação levou a Produtive a implantar uma área de orientação financeira, inclusive com consultoria externa voltada à reeducação para controle das finanças pessoais. É quase um trabalho de "coaching (desenvolvimento de habilidades)", explica o diretor, já que os contratos duram um ano e incluem o acompanhamento dos executivos durante alguns meses após a recolocação no mercado. A consultoria atende a quase 300 pessoas por mês, das quais 40% contratadas diretamente pelos profissionais e 60% pelas empresas que os demitem.